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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A pena

Sigo delirando na vida que é me imposta e reluto em aceitá-la nos seus termos mais conformistas. Quero um mundo mais honesto, nem que eu não possa usufrui-lo enquanto viva, mas que fique de herança da minha breve estadia. Arrogância travestida de altruísmo? Ou uma revolta tão forte (e necessária) que se não for pensando nas próximas gerações melhor não fazer? Essa luta é minha. Deveria ser de todos. Mas é compreensível a desmotivação de cada pessoa. Sigo flutuando porque ainda sou crua em algumas questões, mas das dores, já sou calejada, e isso não significa que doa menos. A questão é que não surpreende mais. Ele diria que é autossabotagem, eu chamo de autocuidado e de percepção deveras aguçada, que beira à enfermidade. Queria uma relação sincera que o machismo passasse longe, mas isso é idealizar demais e o amor não se sustenta assim. Nada nessa sociedade está inerente ao machismo. Me dói porque me faz perceber que continuo falhando. E errando eu sigo me confundindo, me desesperando, me atordoando e me perdendo. Às vezes sinto que não mereço ser amada, não posso culpar a sociedade por me fazer sentir assim, mas também não posso culpar a mim mesma. Só queria um relacionamento que eu pudesse me despir completamente, e eu encontrei, só não sei como me cobrir. Queria me sentir coberta de plumas que de tão macias eu me sentisse acolhida e quentinha, pois estou cansada de flutuar.

sábado, 18 de agosto de 2018

Mulher fácil

Não importa sua linha de frente ou de estudos, você sempre estará fadada a sofrer com a face mais bruta do machismo - porquê você tem conhecimento, já disse alguém que a ignorância é uma benção -, especialmente quando você mantém relações heterossexuais. Porque o homem do seu lado sempre será um homem hétero e independente da cor, da classe, da origem e da luta dele, ao lado dele você sempre enfrentará situações de opressão. Porque você sempre será a mulher da relação e trará todo estigma que isso traz. Você sempre será a pessoa menos benquista. Sempre será aquela motivo de confusão e competição. Ninguém olhará pra você sem antes trazer dois mil artifícios pra te reduzir à figura da mulher, da frágil e extremamente subestimável. Você nunca será boa o bastante. Nem pra ele, nem pras pessoas ao seu redor, nem pra sociedade, que te condena desde o útero. Você sempre será quem carregará o peso do machismo no seu ombro, porque para o homem ao seu lado é só uma questão de compreensão. De esforço. E a maioria das pessoas não quer se esforçar pra entender o outro. Dá trabalho. Cansa. Ainda mais se pensar que poderia ser mais fácil. Claro, se você fosse mais fácil. Mas, no fim, você sempre estará sozinha nessa questão.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Libertação e o racismo deles de cada dia

Quando penso em maneiras de me livrar de um peso muito grande, não consigo me imaginar fazendo outra coisa melhor que não seja escrevendo. Escrever é a minha maior arma desestabilizadora a tudo que me sufoca, o meu grito contra a sociedade que me rejeita, o alívio e o calmante às dores emocionais e, provavelmente, o passaporte para a libertação. Tenho lido bastante sobre racismo e feminismo interseccional asiáticos e muito tenho notado e relembrado o quanto minha liberdade foi invadida, meu despeito tirado à força e minha paz arrancada. Desde que me tenho por gente, percebo que nunca fui tratada como igual pelas outras pessoas. É um sentimento de não-pertencimento enraizado e que, conforme fui crescendo, foi se aflorando. Começando na pré-escola, desde a entrada na perua, durante todo o trajeto e com o passar do dia, eu ouvia, de crianças a adultos, piadinhas sobre como meus olhos eram puxados, perguntas sobre como eu conseguia enxergar, se meus pais sabiam falar em português, sobre a comida que eu comia, entre outras coisas. Para mim, eu era uma criança normal, mas as pessoas sempre me trataram com diferença. Conforme fui crescendo, as insinuações foram piorando, porque eu comecei a ser fetichizada e odiada. Perguntavam se a minha vagina era invertida, se eu só ficava com japas, e ouvia coisas como: "nunca fiquei/provei/comi uma japinha". Muitas vezes me senti com raiva de ser quem eu era, sonhava em acordar um dia e no reflexo do espelho encontrar uma menina branca e de olhos grandes. Quantas vezes me perguntei por que eu tinha que ser diferente. Comecei a ter ódio de ser quem eu era. Comecei a notar que as pessoas se aproximavam ou se afastavam de mim por conta da minha aparência. E o pior disso tudo, é que eu sempre estive exposta, ajudando meus pais na loja deles, cresci vendo eles sendo tratados de maneira diferente, ouvia/ouço meu pai sendo chamado de qualquer outra coisa que não fosse o nome dele, o mesmo acontecia com a minha mãe, minha irmã e qualquer outro parente. Acontecia e acontece o tempo inteiro. Isso cansa, isso dói, porque te faz duvidar de si mesmo. Mas tudo isso despertou em mim uma fúria que se reverteu em me distanciar das minhas origens ou abraçá-la, num dilema infinito. Foi então que eu encontrei o feminismo e descobri que precisava me empoderar, que precisava aprender a me colocar no lugar dos outros, a me ver na pele dos outros. Só que notei que as pessoas também não se colocam no meu lugar, ou no lugar de mulheres como eu. Amarelas, orientais, asiáticas. Hoje eu sei: eu sou diferente. A minha cor é diferente, o meu biotipo é diferente, a minha história também é diferente. E nem por isso dói menos ou mais, apenas a gente vai criando uma armadura. Eu sei me defender, o problema é quando esses pequenos abusos acontecem em ambientes que deveriam ser seguros. Não é todo dia que você acorda empoderada, pronta pra se defender com classe e dignidade. Tem dias que eu só queria ser invisível. Tem dias que os olhares incomodam. Tem dias que a verdade não é sempre branda e nem os abusos são evidentes. Tem dias que você não quer explicar para as pessoas que elas estão sendo racistas, machistas ou homofóbicos, você só quer que elas calem a boca e fiquem longe de você. Tem dias que você só quer se divertir como uma pessoa qualquer, sem receber olhares e julgamentos, sem ter que ter vontade de mandar alguém calar a boca ou se fuder, sem querer se irritar ou virar os olhos. Olhos que por sinal estão bem abertos e observando essa podridão toda sem tentar absorver tudo de ruim que há.
Hoje, eu me olho no espelho com orgulho de ser quem eu sou. Das minhas histórias contadas em tatuagens, dos meus olhos, do meu cabelo e do meu olhar colérico que muitas vezes diz: cuidado, não mexe comigo. Minha aparência desagrada porque não sigo mais qualquer padrão e eu sei que incomoda. Mas, bastasse o olhar de distanciamento a completa defesa das agressões. E é sobre isso que eu ainda não consegui me libertar. Tô cansada. Ainda não me identifico com capas de revista, ainda não me vejo representada em campanhas de "representatividade", ainda não me sinto acolhida por este feminismo, que descobri ser branco, elitista, classista e racista. E agora apenas decidi que não vou terminar este texto com mais lamúrias e sem resolução, porque é aqui que eu firmo: eu vou me levantar, vou continuar sendo forte e vou começar a me posicionar. E essa sociedade que tanto me rejeitou vai ter que me aguentar.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Carol Peletier, férias e feminismo

Algumas semanas depois do carnaval, percebi que precisava descansar. A fadiga me subia pelas pernas e era conduzida por cada artéria, penetrando em cada poro até totalizar meu corpo, deixando-o completamente pesado. Percebi que minha ansiedade também estava às alturas e que desacelerar era mais que preciso. Chorei por duas semanas seguidas, todos os dias, ao me levantar para (não querer) ir trabalhar. Foi uma lástima nunca vivenciada.

É final de fevereiro, tive recesso no começo do ano e folga no carnaval, mas por que merda estou assim? Não sei. Até sei. Mas aqui, vou me abster em declarar apenas que meu corpo e minha mente pediram socorro - e minha mãe, que me disse que eu estava deprimida. Sofrimentos à parte, finalmente os dez esperados dias de fazer porra nenhuma férias chegaram. Embarquei numa maratona de descanso, muito sono, comidas deliciosas e frescas, muita arrumação (e desarrumação) no lar, momentos gostosos e de preguiça ao lado de momô, idas e vindas ao mercado e à casa de mamãe, papai e sistra, alguns momentos ao lado de amigos, e também muitos filmes e séries. E, claro, muito silêncio, ainda bem. Em um desses dias, entediada, resolvi que era a hora de colocar The Walking Dead em dia. Parei na terceira temporada faz mais de um ano, por preguiça e também porque não aguentava mais os assustadores pesadelos com zumbis que tive nesse tempo.

Sim, sou uma pessoa que se impressiona fácil com algumas coisas e as injeta, letalmente, em seu subconsciente, saciando-o por completo. Devo dizer que fiquei impressionada com a série, não sei se era o tédio ou a emoção provocada pelas cenas de ação, mas tenho alguns motivos além: personagens evoluindo entre conversas profundas sobre questionamentos existenciais. Que delícia! Mas, cito a série aqui principalmente por outra razão: a personagem Carol e meu antigo ódio por ela.

Detestava sua submissão ao marido e não dei qualquer mérito por ela tê-lo enfrentado antes de sua morte. No entanto, meu ódio era por ela inteira, tanto fisicamente, quanto pelas suas atitudes e, principalmente, por seu flerte com Daryl, meu personagem favorito quando comecei a ver a série (há quase três anos, acho). Achava ridículo ela investir nele, mesmo ela sendo uma mulher livre (até demais, tadinha, pois também perdeu a filha), e acredito que sentia tudo isso muito mais por ela ser velha, do que por ciúmes, ou coisa do tipo. Eu achava que Daryl deveria ficar com uma mulher mais bonita e que tivesse uma idade próxima, pois acreditava que isso seria mais aceitável, apesar de que não gostaria de vê-lo com qualquer outra pessoa. Sim, rolou um fanatismo adolescente na época, acontece.

Devo dizer que para se entender melhor esta confissão, é preciso levar em conta meu ser naquela fase. Estava afastada no feminismo, havia acabado de sair de um relacionamento abusivo (ou ainda estava nele, não lembro) e tinha perdido, naquele ano, cerca de 20 quilos. 13, fazendo reeducação alimentar e exercícios, e mais 6 só de estresse. Não sei explicar tudo isso, só sei que aconteceu. Por isso, era muito fácil para mim odiar a Carol, uma mulher forte, empoderada e firme em suas convicções e desejos, mesmo passando por vários lutos, vivendo durante o apocalipse zumbi (é) e sendo totalmente fora do padrão ideal de heroína que estamos acostumados: novinha, gostosa, de cabelos compridos e lisos, sedutora.

Era uma época em que eu tinha muitos medos e surfava pela vida como quem só leva caldo na cabeça, mas continua boiando. Certeza que seria a primeira personagem a morrer na série (a não ser que fosse necessário cumprir cota de asiáticos e eu fosse uma espécie de Michonne+Psylocke). Confirmava com exatidão uma frase da Kelly Osbourne, em que ela disse que uma ex-gorda nunca se sentirá magra. De fato, eu estava no meu peso "ideal", mas parecia magra, porque emagreci muito rápido. Estava flácida, cansada e triste. Foi um momento difícil.

Mas ok, superei, cresci e evolui (acredito e espero). E hoje, com meus olhos treinados e despida de pré-conceitos, pude ver uma Carol de um jeito que não esperava. A admirei e torci por ela, chorei com ela em algumas cenas e me questionei, uma porrada de vezes: como eu odiava essa mulher? E, outra dúvida gritante: por que o Daryl não ficou com ela? Ela é sábia, poderosa e amadureceu de um jeito brutal. De mulher frágil que apanhava do marido, ela se tornou uma das cabeças e braços mais inteligentes e fortes do núcleo, tomou decisões difíceis, mas sobreviveu e ajudou outros a sobreviverem. Como fui estúpida, preconceituosa e babaca, pensei. E, na verdade, notei que ela não precisa do Daryl, assim como nunca precisou de qualquer homem. Ela mostrou isso, mais do que uma, duas ou três vezes. Que mulher foda!

Pois bem, meu último dia de férias termina com uma nova tentativa de reeducação alimentar e com o objetivo de começar na academia semana que vem. Não por desespero e necessidade de atingir um padrão impossível e desnecessário, mas porque sinto que meu corpo pede novamente por cuidados, afim de evitar mais carga estressante, mais dias de "como estou horrorosa" e para que eu possa me amar ainda mais. E também com algumas lágrimas, porque estou de tpm e tudo me emociona, além de um flan de chocolate light que me espera na sobremesa. :) Também comecei um laboratório de roteiro para webdocumentário em um coletivo feminista. Sim, vai sair vídeo feminista logo menos. Sim, vai ter meu dedo no meio e meu nome nos créditos! :D

Mas, antes que eu me esqueça: me desculpa Carol, por ter sido injusta com você, com sua luta, que é muito mais importante que sua aparência, que é linda, por sinal. Me perdoe pelos pensamentos provenientes de senso comum e cruéis que tive de e por você. Perdoe a minha ignorância, minha desonestidade, minha falta de sororidade, de empatia e até de humanidade.Vida longa à Carol Peletier, minha nova heroína! Abaixo, a foto das minhas personagens favoritas:


E essa é a sobremesa que me gabei acima. Dica: cuidado com o que você faz no micro-ondas, afinal, panela velha é que faz comida boa! 

Bem, dias de preguiça, dias de glória! Agora, voltamos aos trabalhos!