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sábado, 28 de novembro de 2020

Finados

 Não vou dizer que cheguei ao limite, porque estou há tanto tempo me sentindo pressionada de tantas maneiras, que não sei mais quando foram ultrapassadas minhas próprias barreiras. Só percebo a materialização dessa dor quando ela se transforma em hematomas, que colorem o meu corpo com disfuncionalidades, aflições súbitas e um inflacionado desespero que me faz querer correr sem saber pra onde. E, então, me paralisa, me fazendo questionar se existe algum lugar. Aonde eu caiba confortavelmente. Aonde não hajam circunstâncias que tentem me tirar à força repetidamente. E tudo isso, que dura meses, não passa de um sofrimento silencioso, verbalizado inúmeras vezes, mas silenciado. Deste modo, sigo enfrentando os dias, esperando que eles terminem logo, enquanto negligencio parte de mim, parte do meu ser. Às vezes me pego flertando com o nada, como se fosse possível extrair algo dali. Como se houvesse além no vazio. E me esvazio, cavando esperanças em água mole. Me agonizo, ao ponto de que nem as metáforas me agradam mais, são expurgadas e muitas vezes sem forma. Gostaria de concretude, não me vislumbra a poética aonde não enxergo mais poesia. Ainda desejo muito além de sobrevida. Ainda desejo. Mas, não me vejo forte, pois estou exausta. Pedindo socorro ou, no mínimo, calmaria. Aonde o silêncio seja escolha e não regra para calar nosso âmago. E, a partir disso, talvez eu consiga me levantar. Talvez consiga enxergar amenidade onde tudo é turbulento. Talvez a água não se torne gelo, talvez ela flua como num rio aonde não se entra duas vezes. Talvez se for para findar, que seja o que não me atenua, não a minha própria existência. 

domingo, 2 de agosto de 2020

Letargia

Queria abrir os olhos e acordar deste pesadelo
Queria que tudo isso não passasse de uma ilusão
Que as pessoas pudessem voltar a sorrir e se abraçar
Que eu voltasse a sorrir

Queria que, apesar de tudo, o mundo fosse justo
Queria que a vida fosse um direito de todas e todos
Que as pessoas pudessem sonhar e conquistar
Que eu voltasse a sonhar

Queria que a esperança continuasse presente
Queria que fosse questão de tempo para dias melhores
Que as pessoas apenas tivessem paciência e perseverança
Que eu tivesse esperança

Queria que ninguém se sentisse aprisionado
Queria que eu não me sentisse como se não fosse sobreviver
Que as pessoas pudessem acreditar que o amanhã há de ser melhor
Que eu eu pudesse acreditar

Queria não ter que brigar e suplicar por cuidado
Queria que o ódio não fosse combustível da conversa\
Que ele fosse cuidadoso e se importasse
Que eu ainda me importasse

Queria tantas coisas, mas ao mesmo tempo, apenas queria não sentir nada. Queria esta dor acabasse antes que eu tivesse coragem de tentar acabar com ela com as minhas próprias mãos. Que eu não flertasse com a ideia de morrer antes de saber se existe vida ainda.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Eu pra mim é pouco

Neste corpo que me compreende, não me encontro

Adquiri um peso que meus ombros não podem carregar

Os dias passam como meses, e eu não os percebo

Oscilo entre manhãs nubladas e tempestades noturnas

Sem meio termo, com o copo meio vazio

Temo que este recipiente não irá suportar mais

Noto que dias ensolarados borraram na memória

Restando um gosto amargo que arde o estômago

E traz o invólucro a tona, febril e oco

Não reconheço o reflexo, como se me fosse tomado

O corpo não é meu, nem do Estado, é de outrem

Não o controlo, mas sinto todas as suas dores

Gostaria de não sentir, mas não cabe mais a mim escolher

Queria ser universo, mas mal caibo numa agulha

Sou nada, invisível e alienígena

Fui muito, intangível e insaciável

Fui

Sou

Quero

Ainda

Eu pra mim é pouco.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Não vamos sobreviver a esta pandemia

Por muito tempo reclamei da sensação de abandono sabendo que não se tratava apenas de algo que eu sentia involuntariamente. Pois sabia que sua falta de tato jamais seria resolvida com uma massagem de 5 minutos sobre a ferida já aberta. Hoje, um ano, quase dois anos depois, volto a sentir com mais intensidade as marcas sangrarem. Assim como o sentimento de infelicidade se renovou. Te odeio. Por me fazer lembrar do que meu pai já causou em minha mãe. Por ver você reproduzindo comportamentos muito parecidos, mesmo sendo de gerações diferentes, tendo vidas diferentes. Mas meu pai não consigo odiar, pelo menos não sem o sentimento de culpa acompanhado. Ele é meu pai e não o escolhi, mas já vivemos tanto juntos e ele já foi pai em tantos momentos, que não há como deixar a raiva aumentar. Ele é um senhor de suas dores, incompreendido em meio de mulheres que não o ouvem, pois ele nunca tentou falar enquanto elas carregavam o fardo de seu silêncio. Mas você, você fala e fala demasiado. Você eu escolhi, em você acreditei e depositei expectativas e confiança, deixei meus pais acreditando que sua parceria iria somar, mas me vejo cada vez mais necessitando de muletas para me apoiar. Meus passos são pesados e manco, pois carrego um peso maior do que consigo aguentar. Meus ombros doem, minha coluna não me suporta e meus ventres choram os mal tratos. Me olho no espelho e não me reconheço para além de minhas frustrações, e das olheiras que denotam sofrimento e me dão mais idade do que tenho. Não consigo te perdoar, não somente por quando me negou ajuda, mas por não notar que ainda preciso e ignorar e mentir, todos os dias, dizendo que posso contar contigo. Diz não me entender, diz me amar, diz que tudo vai ficar bem e em apenas em momento de suplício tenta mostrar preocupação. Mas, ora, se tudo evidencia que você não se preocupa com nada além dos seus próprios desejos. Por que devo acreditar? Como vou voltar a confiar? Não fui contaminada, mas me sinto vítima da doença e, a cada dia, adoeço mais. Choro lembrando do porquê parei de acreditar em deus - e não foi quando me assumi ateia há poucos anos, foi uma soma de quando todas as vezes chorei e nunca fui ouvida. Todas as noites que passei em claro pedindo por compaixão, todas as vezes que sofri com o trabalho e tentei acreditar que não estava destinada a só trabalhar exaustivamente a minha vida inteira. Todas as vezes que pedi para cuidar de minha família, das doenças e do mal chamado estresse que sempre existiu entre nós. Nunca fui atendida. E hoje me lembrei de quantas vezes já chorei desesperadamente procurando uma luz ou uma trégua. E o que ganhei foi a tua incompreensão, me joguei no chão e meu ovário começou a arder num súbito continuo mal que atravessa meu corpo fazendo minha lombar queimar como se fosse para me lembrar de que sou humana. E que como sempre na minha vida, a felicidade é tão sublime e breve que é incapaz de me fazer acreditar que bons momentos podem perdurar. Tudo é passageiro, assim como os motivos para sorrir e amar. E tudo o que é ruim fica e dura tempo demais e suficiente para me fazer acreditar que não tem mais jeito.

domingo, 19 de abril de 2020

Eu, frágil eu

Faz um ano que parei de escrever aqui. Não sei dizer porquê exatamente, mas posso chutar. Talvez porque achava que meus delírios estavam tomando outras formas, que estava direcionando-os para algo mais assertivo. Mas é um fato que, relendo alguns posts, muita coisa não mudou. Talvez, certas mudaram para a pior. Não me reconheço mais. Não sei também ao certo o porquê disso, mas sinto que me perdi de mim mesma. Seja pela rotina que foi ficando cada vez mais difícil, seja pelos machucados que continuam latejando. Seja porque me sinto muito distante do ideal emocional que criei como subterfúgio e algo a se conquistar quando me sentia mal e precisava me ancorar. Mas, a verdade é minha navegação atracou em ares estranhos após tempestades que quase me naufragaram. Quando se é mais jovem, é mais fácil comemorar a sobrevivência, como um sinal de vitória acompanhado de frases de resiliência, tipo "nada me derruba", "eu aguento", e por aí vai. Quando se está numa fase da vida em que se busca estabilidade constante, a sobrevivência é só mais um dia do calendário. E fica cada vez mais nítido que não, não aguento mais.
Somos hoje completos estranhos, tão perto, mas tão distantes. Cada um se comunicando em línguas que não se conversam, como dois surdos, ou cegos, ou mudos. Confesso que às vezes não sei como ainda estou em pé, se até meu corpo denota minha exaustão. E não há qualquer sentimento de orgulho relacionado a esta confissão. Já que sinto que a qualquer momento vou adoecer, como uma sombra que paira sob um lago já sem peixes trazendo à tona o presságio da escuridão. Gosto de pensar que algo muito simples, como assistir Vikings, estava me dando alguma inspiração. Mesmo sabendo que minha sugestão poderia não agradá-lo, afinal, como se identificar com esses brancos safados que queriam colonizar o mundo? Apesar de que outros brancos safados colonizaram o mundo e assim que o mundo é, uma grande briga por quem coloniza mais enquanto outros morrem de fome. Ao começar a ver a série notei algo interessante nesses vikings, que é a ausência do medo perante à morte. Enquanto fomos criados num mundo de tradição cristão, em que o temer é constante, seja de deus ou do homem, é realmente acalantador. Gostaria de encarar este momento que todos vivemos dessa forma, mas a real é que temo, temo muito a doença e a morte, especialmente daqueles que jurei cuidar. E você, é um deles. Tenho falhado, talvez, nunca tenha cuidado de verdade, como você mesmo disse. Mas, lembro bem, de vários momentos que você nunca deixou ser cuidado de fato. E que é muito difícil cuidar de alguém que não valoriza isso. Fiquei relapsa, amargurada, como você mesmo disse. Fiquei o pior que eu mesma poderia me imaginar. Eu tendo a me culpar por isso, como se fosse um carma que carrego de saber que nunca vou ser amada, mesmo você me dizendo o contrário. E diz que o culpo. Fico pensando que não somos tão diferentes do cristãos tementes e hipócritas, seja do século VII, seja de agora. Confesso que tenho te tratado de uma forma que eu jamais gostaria de ser tratada, mas ainda assim, sou eu tentando me defender. Porque sinto que isso é uma constante, que se eu não me defender, vou cair de vez e vou me tornar de vez algo que nunca desejei e me nego de todas as formas possíveis a aderir: a submissão. Pra você pode ser exagero, histeria, afinal, já se perguntou quantas vezes você chamou ou consentiu uma mulher de histérica? Será que minhas inseguranças não têm um fruto real a não ser o mundo imaginário e perdido da minha mente? Será que minhas reclamações são tão distantes da realidade assim? Será que eu não mereço ser bem cuidada e que assim também vou voltar a cuidar? São tantas questões que não cabem mais aqui.
Tenho uma ferida na minha mão, que está ardendo e sensível ao toque. Sinto meu coração da mesma forma. E assim como qualquer aproximação faz a ferida doer e repelir o que lhe é estranho, sinto que meu condicionamento é este. Não posso dar o braço a torcer, porque você vai fazer de novo. E não há nada neste mundo, nenhum cosmético ou medicamento, que vai limpar sua visão. Assim como tendo a desconfiar, você tende a me desacreditar. E não há mundo possível para dois humanos assim viverem em conjunto.
Penso que o que une as pessoas é o sentimento de coletividade e de reciprocidade, e isso envolve diálogo, sincero e aberto, envolve querer fazer as coisas fluírem. Envolve se doar. E sinto que perdemos, ou talvez nunca tivemos concretamente por muito tempo, isso. Nossos sonhos se desencontraram, nossos abraços perderam o efeito reparador, porque a fala verborrágica, contraditória e errática soa mais alta. Os sorrisos selaram-se em amargor de lábios rachados. A voz nem soa mais como próxima à música. Assim como nossos corpos permanecem frios e nossas vontades desconexas. Tento entender onde errei e vou continuar tentando, não sob a exaustiva tentativa de racionalizar tudo, mas sob o espectro de que preciso melhorar. Mas não vou, nunca mais, ficar me culpando por um fim inevitável e cravado por duas pessoas.
É preciso saber a hora de ir embora, ainda mais quando a hora de se calar paralisou os ponteiros. Não acredito num futuro promissor para nós. Não posso me iludir mais, porque preciso ter os pés nos chãos e focar na luta diária que me é imposta. Gostaria que fosse diferente, mas ai eu estaria me iludindo novamente. A realidade agora é dura, feia, isoladora e as chances de liberdade parecem distantes. Mas, isso tudo me faz pensar no que é liberdade? Mais vale estar confinado num lar repleto de amor ou solto nas ruas esvaziadas pelas nossas escolhas de vida?
Me sinto pequena e sozinha. E se meu barco precisa navegar, que seja para ilhas mais afáveis ou para permanecer e criar raízes. Com você, ou não.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Existe algum lugar?

Existe algum lugar em que eu me encaixe sem que eu me sufoque? Que me faça querer fugir ou gritar ou espernear ou correr pra um abraço? Daqueles que acalentam suficientemente o ego e afagam as dores? Onde eu me encontro nesse abraço? Posso eu abraçar a mim mesma? Posso algum dia parar de me sentir mal por nunca conseguir ser suficiente? Posso realmente ser capaz, sozinha, de revolucionar os paradigmas da minha própria percepção de vida? Quem eu sou que não me encontro de mim mesma? Será que a pergunta deveria ser: o que eu quero? Ou quem quero ser? Ou o que preciso fazer para me sentir melhor na minha própria pele?
Sinto que me falta combustível, mas mais do que isso me falta um lampejo certeiro. Sinto que não quero sentir mais nada porque estou cansada. Quero ser livre.

terça-feira, 12 de março de 2019

Trabalho


Vivo um momento de intensa inadequação. No ambiente de trabalho, em casa e nas perspectivas de vida. Não encaixo. Talvez por ser grande demais e não caber, mas a sociedade me faz acreditar - com seu jogo maléfico de poder - que é porque sou vazia. Tenho pouco valor, logo, não sirvo de demanda. Porque questiono demais, porque não tenho foco somente na minha função e não tento melhorar para ser uma funcionária melhor. Tento melhorar como pessoa, ser maior e não suficiente para o trabalho, ou grande para ser destaque aos olhos do patrão. O trabalho não deveria moldar a vida. A vida deveria moldar o trabalho. Quanta coisa a gente deixa de fazer porque não cabe ao trabalho? E essas coisas viram hobby e quem consegue manter uma atividade que gosta sem ganhar dinheiro com isso é porque tem uma condição de vida melhor do que a maioria da população, porque tem o privilégio do tempo e do dinheiro. Ter privilégio não significa que alguém é menor porque tem, mas deveria entender que todo mundo também poderia ter. Poderia ter tempo e dinheiro para fazer coisas que gosta para não adoecer e, indo mais além, não deveria viver de forma precarizada enquanto favorece e enriquece bolsos de outrem que não sofrem nada dessa realidade, que atuam para manutenção dessa desigualdade e que não querem que todos tenham os mesmos privilégios. Fazer reforma, melhorar o poder de compra, se contentar com pouco ao mesmo tempo que alguns não tem nada é suficiente?
Esse mundo é doente.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Iludida

Só uma iludida pra continuar acreditando no amor ainda. Nesses amores doces, com gosto de fruta mordida. Continuar acreditando que é possível ser feliz ao lado de alguém. Nesse mundo doente e egoísta que gera pessoas doentes e egoístas. Só uma iludida pra continuar acreditando que existe alguém legal, leal. Que vai te colocar em primeiro lugar porque sabe que você vai tratá-lo da mesma forma. Alguém que cuide por amor, de fato. Que te prestigie e te queira bem, mais do que isso: queira te fazer bem. E faça, de fato. Alguém que faça mais do que planos, mas que queira colocá-los em prática. É ilusão acreditar no amor? Querer ser feliz e maior do lado de alguém. Sentir-se bem, afim de colocar a mão na massa e construir. Parece que tudo é pecado, nesse mundo doente e egoísta. Parece que não vivo pra esse mundo, mas é porque cansei de mim mesma.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Distância

Fiquei tanto tempo esperando pra amar uma pessoa que estava do outro lado do mundo de perto, que me perdi entre sonhos e ilusões, imaginando uma vida na qual nunca fui capaz de imaginar e me agarrei isso. Tive meu coração partido assim que as desilusões vieram à tona, mas muita coisa não mudou dentro de mim. Com o coração em recuperação me deparei com um novo amor. Perto, aconchegante e desafiante, a melhor pessoa que eu poderia ter encontrado. Com todos os seus defeitos ela me mostra que é humana, e assim a amo, mas me sinto presa às minhas próprias expectativas, por vezes incoerentes e individualistas, ainda que baseada na proposta de vida conjunta que me é ofertada, buscando fincar meus pés no chão, mesmo quando eles queimam em brasas. Assim vou caminhando sob à ideia de um propósito - construído em conjunto -, mas as vezes me deparando com curvas perigosas, becos sem saída e precipícios que levam ao abismo. Minha mente delira, obscurecida pelo medo de fracassar e do abandono latente. Não sei mais o que pensar, para onde fugir e nem a resposta de uma questão clara: agora que posso viver esse amor, na sua melhor condição e por alguém que vale a pena, porquê tenho que me distanciar?

domingo, 23 de dezembro de 2018

Trégua

Existe espaço no tempo para recuperar o fôlego perdido? Pode-se dizer que sim, mas e se o pulmão já está estragado devido aos maus tratos recebidos ao longo do tempo? Cabe um lapso capaz de reverter isso ou estamos todos perdidos? Reféns de uma ilusão relacionada a um tempo que não volta ou um futuro que não chega. A vida é breve, tão breve que nos perdemos com relação ao nosso tempo e estragamos o tempo que nos resta sem notar que a vida passa e não é percebida. Daí acabou o tempo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Previsível

Parece que quando alguém acha que nos conhece ela passa a agir, com o passar do tempo, como se você sempre fosse estar ali, para servi-la, para ser companhia, para ajudá-la, para apoiá-la, para suportá-la em sua impassível individualidade - cega e, provavelmente, despretensiosa -. Você se torna, para a pessoa, aquilo que mais rejeita: um ser previsível. Engraçado, porque sinto que as pessoas sempre me surpreendem, e, portanto, acho que cabe não subestimá-las. Ninguém gosta de ser subestimado. A gente às vezes cria uma imagem de nós mesmos, com cuidado ou, na maioria das vezes, com arrogância, que dói demais quando nos tratam como menos. Não sei se o que falta é humildade, mas creio que além disso é preciso consistência. É difícil tentar agir de determinada forma - mudando um comportamento - quando se é tratado por baixo. Nossas defesas são construídas social e moralmente e, com base nisso: individualmente. Vamos criando estratégias mentais de fácil superação para estar em cima de qualquer situação - nem que seja superficial, é uma defesa - e é mais fácil seguir em frente do que realmente entender o que está acontecendo. Me sinto vítima das minhas tentativas de autodefesa, e nem por isso me machuco menos. Me doou demais, espero demais e me iludo demais. Penso tanto que chego à exaustão e, quase sempre, não encontro soluções. Sinto que continuo sozinha. Previsível até pra mim.

Sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada. E é a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos.
Zygmunt Bauman

Minha liquidez


Eu tenho essa mania de ser muito dura comigo mesma, coisa fadada há muito tempo. Mas, como sou humana - cheia de falhas e incoerências -, é natural dizer que não faço por onde, nem quando minha consciência já pesa antes de eu agir. Impulsiva demais pra dar tempo ao tempo e respeitar o tempo do outro. Eu não respeito nem o meu tempo, eu nem sei reconhecer o meu tempo. Porém é um aprendizado mais que requisitado, se tornou necessário. Se é difícil mudar um comportamento - como dizem - creio e noto que é mais difícil mudar um pensamento, que começa como um lapso ou através de um gatilho acionado, e se transforma numa parte de você, ou no que você passou a vida toda acreditando ser. Não sei porquê me perco tanto, talvez eu não confie em mim mesma. Talvez eu não sei lidar comigo mesma em alguns momentos, e assim, não sei lidar com o outro, ou com os outros. Me sinto cansada de bater sempre na mesma tecla, que cada vez mais se transforma num grande muro, onde bato a cabeça toda vez que eu não sei pra onde ir. E assim vem a vontade de correr. Fugir. Pra bem longe, mas nem sei exatamente do quê. Talvez, toda vez que o impulso desse tipo de pensamento surge, eu esteja querendo fugir de mim. Queria ser coberta, não numa bolha, mas demasiadamente segura. Isso deve ser uma ilusão.

O que aprendemos com a amarga experiência é que essa situação de ter sido abandonado à própria sorte, sem ter com quem contar quando necessário, quem nos console e nos dê a mão, é terrível e assustadora. Mas nunca se está mais só e abandonado do que quando se luta para ter a certeza de que agora existe de fato alguém com quem se pode contar, amanhã e depois, para fazer tudo isso se - quando - a roda da fortuna começar a girar em outra direção.  
Zygmunt Bauman

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Palavras que sufocam e trazem o desafeto

...

Mulher odiável

Apaixonante ela transcende entre as praças e esquinas, com seu perfume sabor selvagem: cheiro de flor madura e fumaça de cigarro. E como uma ninja ela desaparece, sorrateira, travessa. Eles pensam que ela quer brincar, mas o que ela quer é se firmar, não mais se autoafirmar, dançar por entre as arestas da vida, que castiga. Sentir o mais sublime amor, banalizado pelos conceitos que o permeiam. Não se vive o amor conceitual, se faz o amor, se constrói o amor. Ela vai, samba, ri, mas chora, embaixo do edredom, vazio e frio. Na calada da noite, ela não se encontra mais, porque hoje ela é do dia. E nas ideologias da vida, ela se transforma em bruxa ou em fada, que enfeitiça e desgraça.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Cedo demais

Cedo demais para desavenças.
Cedo demais para sentir abandono.
Cedo demais para se sentir perdida.
Cedo demais para querer sair correndo.
Cedo demais para o sofrimento claustrofóbico.
Cedo demais para o silêncio ficar constrangedor.
Cedo demais para as incoerências e discrepâncias.
Cedo demais para a dor ser maior que o amor.
Cedo demais para se acabar, como um desabrochar de uma flor.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Abandono

Já foi dito que o homem (sic) é um animal social por natureza. Enquanto integrante da sociedade, o ser social depende de suas relações sociais inclusive para sobreviver. Eu não levo em consideração pseudo-eremitas que não pagam aluguel porque vivem com os pais, trancafiados em suas bolhas impenetráveis. Já conheci alguns e a experiência foi mais que péssima, pois minha presença, ou de qualquer outro, só era requisitada para utilidade. Odeio pessoas puramente utilitaristas, ainda que, sabemos que a maioria das relações ainda assim sobrevivem dessa maneira, somos seres sociais, precisamos uns dos outros. Eu sou da multidão, não daquelas dos shows lotados (depende da intenção, claro), mas que leva em consideração a vida em sociedade na sua forma mais pragmática: no desejo e no ensejo do compartilhamento. Na ajuda, no companheirismo, no ideal de igualdade. A gente precisa de individualidade, mas precisa saber estar aberto suficiente para não precisar e pedir mais do que está disposto a doar. É uma via de mão dupla. Sempre digo que odeio pessoas egoístas, perdidas na própria vaidade, que não enxergam dos lados, que sugam e não oferecem nada em troca. Odeio porque meus princípios morais se baseiam nesses fatores citados. Não ter expectativa é uma ilusão. Impor que o outro cumpra com sua expectativa é outra história. É egoísmo? Acredito que ninguém é totalmente altruísta e quem acredita nisso pode ser mais vaidoso do que realmente caridoso. Será que nesse caso os fins justificam os meios? Não sei dizer. Às vezes idealizo demais e, por assim sendo, erro na mesma proporção. Longe de mim sentir as mazelas de um abandono. Que por vezes inconscientemente sentimos em vários momentos. Difícil é viver e ser coerente o tempo todo, seja com suas ideologias, seja com as pessoas que te cercam, seja consigo mesmo. A gente muda muito, sente muito e se perde muito. A racionalidade é um estado necessário. Não se compra, não se vende, talvez se troque. Difícil é ser racional enquanto se sente contrariado, desafortunado, abandonado. A dor que entra em colapso grita mais forte, e assim a loucura parece ganhar força. O medo transforma, o medo deturpa. O medo gera violência, autoritarismo, insanidade. Ainda que as conquistas sejam escassas, é preferível comemorar e se orgulhar da luta que lamentar o fracasso.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A pena

Sigo delirando na vida que é me imposta e reluto em aceitá-la nos seus termos mais conformistas. Quero um mundo mais honesto, nem que eu não possa usufrui-lo enquanto viva, mas que fique de herança da minha breve estadia. Arrogância travestida de altruísmo? Ou uma revolta tão forte (e necessária) que se não for pensando nas próximas gerações melhor não fazer? Essa luta é minha. Deveria ser de todos. Mas é compreensível a desmotivação de cada pessoa. Sigo flutuando porque ainda sou crua em algumas questões, mas das dores, já sou calejada, e isso não significa que doa menos. A questão é que não surpreende mais. Ele diria que é autossabotagem, eu chamo de autocuidado e de percepção deveras aguçada, que beira à enfermidade. Queria uma relação sincera que o machismo passasse longe, mas isso é idealizar demais e o amor não se sustenta assim. Nada nessa sociedade está inerente ao machismo. Me dói porque me faz perceber que continuo falhando. E errando eu sigo me confundindo, me desesperando, me atordoando e me perdendo. Às vezes sinto que não mereço ser amada, não posso culpar a sociedade por me fazer sentir assim, mas também não posso culpar a mim mesma. Só queria um relacionamento que eu pudesse me despir completamente, e eu encontrei, só não sei como me cobrir. Queria me sentir coberta de plumas que de tão macias eu me sentisse acolhida e quentinha, pois estou cansada de flutuar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Desmotivação

O título me acompanha como um sobrenome. É o terceiro lugar que eu trabalho este ano e não consigo mais me enxergar motivada. Passam-se alguns meses, semanas, dias, e eu já tô querendo pedir arrêgo. Escrevo este parágrafo duvindo de mim mesma. Porque a vida toda ouvi que a gente tinha que valorizar o nosso trabalho, que uma atitude dessas (chegar atrasada, faltar, o contrário da proatividade) é coisa de gente que não precisa do emprego, principalmente da minha mãe, que depois que virou patroa esqueceu-se como é ser funcionária. Aliás, ela acha que é assim que deve ser, que a gente não pode ficar insatisfeito e buscar por oportunidades melhores, que não pode brigar por melhores condições de trabalho etc. Ela tem mudado o pensamento, mas ainda não entende porque pulo tanto de emprego em emprego. Eu tenho vários motivos - que cansei de explicar. A terapeuta disse que eu me afeto muito com o ambiente e pessoas. Verdade. Eu as odeio. Tá, foi exagero. Tem gente legal e gente cuzona em qualquer lugar. Depender de pessoas, especialmente no ambiente de trabalho, pra encontrar a própria satisfação nunca é um bom caminho. E é essa a minha questão. Eu amava a content e as pessoas, mas estava infeliz no trabalho. Eu odiava a mestiça porque o ambiente era um lixo e não gostava nenhum pouco do meu trabalho. Neste lugar, eu amei o dinheiro, mas não tenho mais paciência e nem alma pra vender pra fazer qualquer esforço em me enturmar pra continuar lá. Por: dinheiro. Não aguento mais buscar por: dinheiro. Já me fodi tanto com a falta dele e com o desemprego que talvez eu devesse agir conforme minha mãe e o Temer acham: não pense, trabalhe. Acontece que então nem tenho como começar porque meu trabalho envolve totalmente o pensar. Se não estou bem, não trabalho bem. Porque toda aquela lavagem cerebral que passei em achar algo positivo na propaganda morreu. Tô quase virando militante anti-publicidade de tanto argumento que encontrei. Vou fazer uma anti-campanha. Criar uma estratégia do caos. Fazer um brainstorm pra chegar na melhor ideia de desordem e algumas peças de anarquismo pra derrubar esse governo golpista e saquear a casa e as contas de quem tem mais de 2 milhões de propriedade e renda líquida. Tudo isso de forma conceitual, o slogan até pode ser: "Distribua seus bens ou renda-se". E o posicionamento: "O poder é nosso". Ah, isso seria um prazer, rs. Sonho de princesa, aliás, de pebleia.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Abuso

No primeiro ano da faculdade, minha referência de jornalista era o Caco Barcellos, autor de dois dos meus livros de investigação jornalística favoritos: O Abusado e Rota 66. O primeiro traz um relato em primeira mão (trabalho de campo), de consistência imparcial - ainda que moderada por própria dificuldade do impacto que a linguagem pode causar - sobre a trajetória do Marcinho VP, líder do Comando Vermelho, da sua ascensão à sua queda, com entrevistas com pessoas próximas, familiares, policiais exonerados etc, tudo numa narrativa concisa e coerente aos fatos. É um livro de mais de 500 páginas que consumi como se fosse um irresistível hambúrguer num dia de TPM. O segundo é uma denúncia indireta - com nomes pouco disfarçados dos personagens - aos comandantes da Rota e dos seus casos de extermínio em massa. O trabalho minucioso e sensível do Caco me encantava, eu sentia que era isso que eu queria fazer. Caco romanceava duas histórias que se confundem, porque em ambas há o abuso da polícia militar e a impotência do cidadão comum de se defender desses abusos e deixar de ser vítima. Quase dois anos depois, comecei um estágio numa editora sendo explorada redatora/repórter assistente de duas revistas, uma de artesanato e outra de gastronomia. Não consigo resumir a série de abusos que vi e vivenciei naqueles insuportáveis 9 meses. Foi a primeira vez que pedi demissão na vida. Ambiente opressor, machista e elitista, onde a maioria, veja bem, era composta por mulheres, desde a recepção à sala da editora-chefe. A editora faliu. Muitos funcionários dali hoje trabalham com a publicidade mais tosca que existe, que é das mídias sociais, feita por ex-jornalistas que escrevem textões sobre produtos achando que estão informando e não vendendo, mídia barata, trabalho sem conceituação, apenas textão explicativo. Gosto de rir porque eu mesma já acreditei nessa mentira e gosto de ver pessoas arrogantes quebrando a cara. É o prazer da vingança indireta. Outros trabalham em jornais de bairro, ganhando pouco e dependendo dos releases da subprefeitura local. Ou seja, não é um trabalho de redação ou reportagem, e sim de edição, você apenas altera parte do conteúdo de um texto escrito por alguém, que tem diversos objetivos, inclusive. Lembrando que press-release é o começo da propaganda, em conjunto com a relações públicas, adentrando o jornalismo. O press-release é o material do assessor de imprensa. É o ópio dele, é quando ele transforma produto em conteúdo, travestido de informação. Naquela mesma época eu já havia aprendido as teorias de pharmakon, e sabia que o que eu trabalhava também era cosmética. Alguns colegas de sala trabalhavam com o veneno, em revistas de fofocas e/ou sensacionalistas. Anos depois, acabei migrando para a publicidade numa agência de health care em que boa parte do meu trabalho era conceituar remédios e, com o tempo, minha linguagem de trabalho foi se transformando. Eu, que acreditava na linguagem como forma de remediar, provei do meu próprio veneno. Caco Barcellos a essa altura já estava em Paris, local onde encontrou exílio após a perseguição (de policiais, políticos e traficantes) dos que trataram O Abusado como um enaltecimento da figura do dono do morro, mas que também expôs muita gente. Na época, o texto de Caco foi comparado ao que fizeram os autores dos livros didáticos sobre a história de Che Guevara: "transformou o bandido num herói". Eu pensava se eu teria culhões de invadir uma zona de guerra, como o Caco, sob o risco de ser morta ou ganhar um Pulitzer, para o orgulho de minha família, enquanto tomava café expresso sentada dentro de um pequeno escritório numa região classe média de São Paulo. Momento confuso da vida. Vivia um relacionamento abusivo. Ganhava pouco mais do que no estágio de 3 anos antes. Minha mãe se recuperava de um câncer. E eu ainda sofria com os pós-efeitos de ataques de gordofobia. Experimentava o desgosto de episódios de anorexia e depressão. E não encontrava mais chão. Continuei por inércia. Passados quase 3 anos no mesmo lugar, mesmos clientes, um salário um pouco maior e um peso nos ombros por conta de todo estresse que aquela situação me causava, depois de vários relacionamentos interpessoais fracassados, várias questões, pessoas e situações difíceis, todas vividas durante esse período, passei a pensar na morte como subterfúgio para um grito interno. Muita coisa mudou depois disso. Hoje, anos e anos depois, encontro questões parecidas, mas notei que em grande parte das escolhas que tomei, das situações opressoras que mantive - e depois corri num impulso de desespero -, eu era a minha principal abusadora. Mas isso só seria possível de se concluir se eu acreditasse que minhas escolhas são inerentes ao ambiente e a todos os fatores que se movimentam ao meu redor, como se eles não me afetassem. Hoje, concluo que a melhor escolha é aquela que é tomada através da crença no próprio juízo do momento, mesmo que se ao olhar para trás, não faça sentido ou você não se reconheça. Pra não dizer mais: fugir de abusos em quaisquer situações, seja no corporativismo, nos relacionamentos afetivos e interpessoais e, claro, antes de tudo, consigo mesmo.

sábado, 18 de agosto de 2018

Mulher fácil

Não importa sua linha de frente ou de estudos, você sempre estará fadada a sofrer com a face mais bruta do machismo - porquê você tem conhecimento, já disse alguém que a ignorância é uma benção -, especialmente quando você mantém relações heterossexuais. Porque o homem do seu lado sempre será um homem hétero e independente da cor, da classe, da origem e da luta dele, ao lado dele você sempre enfrentará situações de opressão. Porque você sempre será a mulher da relação e trará todo estigma que isso traz. Você sempre será a pessoa menos benquista. Sempre será aquela motivo de confusão e competição. Ninguém olhará pra você sem antes trazer dois mil artifícios pra te reduzir à figura da mulher, da frágil e extremamente subestimável. Você nunca será boa o bastante. Nem pra ele, nem pras pessoas ao seu redor, nem pra sociedade, que te condena desde o útero. Você sempre será quem carregará o peso do machismo no seu ombro, porque para o homem ao seu lado é só uma questão de compreensão. De esforço. E a maioria das pessoas não quer se esforçar pra entender o outro. Dá trabalho. Cansa. Ainda mais se pensar que poderia ser mais fácil. Claro, se você fosse mais fácil. Mas, no fim, você sempre estará sozinha nessa questão.