Existe algum lugar em que eu me encaixe sem que eu me sufoque? Que me faça querer fugir ou gritar ou espernear ou correr pra um abraço? Daqueles que acalentam suficientemente o ego e afagam as dores? Onde eu me encontro nesse abraço? Posso eu abraçar a mim mesma? Posso algum dia parar de me sentir mal por nunca conseguir ser suficiente? Posso realmente ser capaz, sozinha, de revolucionar os paradigmas da minha própria percepção de vida? Quem eu sou que não me encontro de mim mesma? Será que a pergunta deveria ser: o que eu quero? Ou quem quero ser? Ou o que preciso fazer para me sentir melhor na minha própria pele?
Sinto que me falta combustível, mas mais do que isso me falta um lampejo certeiro. Sinto que não quero sentir mais nada porque estou cansada. Quero ser livre.
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quinta-feira, 21 de março de 2019
terça-feira, 20 de novembro de 2018
Viagem
Tenho receio de levianidade, assumo. Presto atenção ao que não me pertence e sofro porque não sei separar. Não entendo meus limites, pois não gosto de me cercear. Mas tento antecipar e na espera me enclausuro. Na claustrofobia cerebral, divago e permaneço, sem saber onde vou parar. Surtos de lá pra cá, extremos acolá. E uma vontade imensa de fugir sob a esperança de me resgatar. Sem buscas por um porto seguro, a ânsia é por desprendimento. Sentir na pele o vento bater no rosto, devagar. Como uma nova brisa que fornece alegria e contagia. Inocência minha, mas felizes são aqueles que não esperam demais e não mantêm suas mentes presas ao mesmo lugar. O pensamento pode ser ecumênico, basta manter-se livre.
Dois tempos e um quebrado
Tenho dificuldades para dormir,
Porque temo perder tempo,
E não vivo, apenas resisto,
Porque vago como um zumbi,
Perdida em meus pensamentos.
Perdida nos meus desejos.
Queria poder me perder no mundo.
Fechar os olhos e me transportar,
Vagar por entre as ruas e sorrisos,
Explorar e sentir novos lugares,
Sob a esperança de reconciliação,
Com o tempo, com o mundo e comigo.
Queria entender o que não é meu,
E ao mesmo tempo me tranquilizar,
Pois nada me pertence, nem o tempo,
Nem meus pensamentos.
quinta-feira, 15 de novembro de 2018
Previsível
Parece que quando alguém acha que nos conhece ela passa a agir, com o passar do tempo, como se você sempre fosse estar ali, para servi-la, para ser companhia, para ajudá-la, para apoiá-la, para suportá-la em sua impassível individualidade - cega e, provavelmente, despretensiosa -. Você se torna, para a pessoa, aquilo que mais rejeita: um ser previsível. Engraçado, porque sinto que as pessoas sempre me surpreendem, e, portanto, acho que cabe não subestimá-las. Ninguém gosta de ser subestimado. A gente às vezes cria uma imagem de nós mesmos, com cuidado ou, na maioria das vezes, com arrogância, que dói demais quando nos tratam como menos. Não sei se o que falta é humildade, mas creio que além disso é preciso consistência. É difícil tentar agir de determinada forma - mudando um comportamento - quando se é tratado por baixo. Nossas defesas são construídas social e moralmente e, com base nisso: individualmente. Vamos criando estratégias mentais de fácil superação para estar em cima de qualquer situação - nem que seja superficial, é uma defesa - e é mais fácil seguir em frente do que realmente entender o que está acontecendo. Me sinto vítima das minhas tentativas de autodefesa, e nem por isso me machuco menos. Me doou demais, espero demais e me iludo demais. Penso tanto que chego à exaustão e, quase sempre, não encontro soluções. Sinto que continuo sozinha. Previsível até pra mim.
Sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada. E é a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos.
Zygmunt Bauman
Minha liquidez
Eu tenho essa mania de ser muito dura comigo mesma, coisa fadada há muito tempo. Mas, como sou humana - cheia de falhas e incoerências -, é natural dizer que não faço por onde, nem quando minha consciência já pesa antes de eu agir. Impulsiva demais pra dar tempo ao tempo e respeitar o tempo do outro. Eu não respeito nem o meu tempo, eu nem sei reconhecer o meu tempo. Porém é um aprendizado mais que requisitado, se tornou necessário. Se é difícil mudar um comportamento - como dizem - creio e noto que é mais difícil mudar um pensamento, que começa como um lapso ou através de um gatilho acionado, e se transforma numa parte de você, ou no que você passou a vida toda acreditando ser. Não sei porquê me perco tanto, talvez eu não confie em mim mesma. Talvez eu não sei lidar comigo mesma em alguns momentos, e assim, não sei lidar com o outro, ou com os outros. Me sinto cansada de bater sempre na mesma tecla, que cada vez mais se transforma num grande muro, onde bato a cabeça toda vez que eu não sei pra onde ir. E assim vem a vontade de correr. Fugir. Pra bem longe, mas nem sei exatamente do quê. Talvez, toda vez que o impulso desse tipo de pensamento surge, eu esteja querendo fugir de mim. Queria ser coberta, não numa bolha, mas demasiadamente segura. Isso deve ser uma ilusão.
O que aprendemos com a amarga experiência é que essa situação de ter sido abandonado à própria sorte, sem ter com quem contar quando necessário, quem nos console e nos dê a mão, é terrível e assustadora. Mas nunca se está mais só e abandonado do que quando se luta para ter a certeza de que agora existe de fato alguém com quem se pode contar, amanhã e depois, para fazer tudo isso se - quando - a roda da fortuna começar a girar em outra direção.
Zygmunt Bauman
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
Mulher coletiva
Assim foi como ele me definiu: mulher coletiva. Mais do que o termo pareça oferecer, me defino alguém que necessita de práxis coletiva, apesar de odiar certas pessoas dentro dos espaços coletivos que são extremamente individualistas. Odeio individualismo, apesar de que também posso cometer esse erro. Acho que no fim é um exercício básico pra ser sempre colocado em prática: não ser individualista. Essa conversa aconteceu depois do primeiro turno dessas eleições, eu me sentia mais perdida que nunca e me embebedei de várias doses de depressão. De lá pra cá me envolvi em algumas atividades e devo ter conhecido mais de cinquenta pessoas nas últimas semanas. Pessoas bacanas, camaradas, que pensam parecido, que tem um senso de justiça social em comum. Absorvo, fundo e sem medo. Parece que estou me encontrando em um lugar. Parece que meu tempo de vida não será à toa conforme o que acredito. Parece que tenho muito trabalho a fazer e muito a aprender.
terça-feira, 23 de outubro de 2018
Su gracia
En toda la inmensidad de tu ser, siento que ya no me arriesgo, temiendo ser audaz y teniendo cuidado de no parecer acomodada. El amor me parece cómodo, confortable, como un abrazo afable y acalentador o como un beso caliente y que te transporta al más sublime universo. La idealización no es algo que me atrae más, digo lo que siento y no tiene nada más sincero que eso. Quería darte el mundo, yo diría, tiempos atrás, pero me has enseñado, de alguna manera, que el mundo pertenece a todos y dividirlo igualitariamente es más justo y plausible. Quería que el mundo viera el poder de tu sonrisa y que ese gesto fuese capaz de tranquilizar a esa sociedad, se burlaba y desgraciada, pero yo confieso que prefiero tener dosis homeopáticas de esa sensación sólo para mí, porque soy egoísta en toda la ignorancia y insegurancia de mi ser. Nací mujer y así moriré, me convertí mujer y así no me conformé, con el ser social al cual fui calificada y usurpada mi paz fue atravesada. Me sigo perdiendo y encontrándome en tus brazos, entendiéndome y cambiando en nuestras conversaciones y ambicionando un futuro más honesto para nosotros, para todos. Su amor me hace mejor. Gracias.
Imaculável ego
Que traiçoeira seria essa vida que coloca à prova a nossa existência com base apenas na realização através da imagem do outro. Existem tantas formas de viver e se relacionar, mas a nossa sociedade está adoecida com tanta distorção e confusão, que é capaz somente de frisar a sobrevivência por meio da inveja, da competição e da manutenção e enriquecimento da vaidade. E haja combustível pra alimentar tanta vaidade. Combustível esse que depende da alienação, abnegação e submissão de outrem. Onde o outro continua sendo visto como mercadoria, mesmo para aqueles que se dizem contra esse sistema. Qual foi o ponto perdido para que o egocentrismo dominasse as nossas relações? Onde nos encontramos quando achamos que o mundo nos deve o que merecemos? Quando estaremos completamente satisfeitos ou a satisfação é um conceito irreal? Não dá pra ser coletivo quando não sabemos dividir. Não dá pra ser justo quando não temos uma visão realista de nós mesmos. Mas até que ponto a mente perverte ou quer se deixar enganar? A quem realmente enganamos?
terça-feira, 25 de setembro de 2018
Abandono
Já foi dito que o homem (sic) é um animal social por natureza. Enquanto integrante da sociedade, o ser social depende de suas relações sociais inclusive para sobreviver. Eu não levo em consideração pseudo-eremitas que não pagam aluguel porque vivem com os pais, trancafiados em suas bolhas impenetráveis. Já conheci alguns e a experiência foi mais que péssima, pois minha presença, ou de qualquer outro, só era requisitada para utilidade. Odeio pessoas puramente utilitaristas, ainda que, sabemos que a maioria das relações ainda assim sobrevivem dessa maneira, somos seres sociais, precisamos uns dos outros. Eu sou da multidão, não daquelas dos shows lotados (depende da intenção, claro), mas que leva em consideração a vida em sociedade na sua forma mais pragmática: no desejo e no ensejo do compartilhamento. Na ajuda, no companheirismo, no ideal de igualdade. A gente precisa de individualidade, mas precisa saber estar aberto suficiente para não precisar e pedir mais do que está disposto a doar. É uma via de mão dupla. Sempre digo que odeio pessoas egoístas, perdidas na própria vaidade, que não enxergam dos lados, que sugam e não oferecem nada em troca. Odeio porque meus princípios morais se baseiam nesses fatores citados. Não ter expectativa é uma ilusão. Impor que o outro cumpra com sua expectativa é outra história. É egoísmo? Acredito que ninguém é totalmente altruísta e quem acredita nisso pode ser mais vaidoso do que realmente caridoso. Será que nesse caso os fins justificam os meios? Não sei dizer. Às vezes idealizo demais e, por assim sendo, erro na mesma proporção. Longe de mim sentir as mazelas de um abandono. Que por vezes inconscientemente sentimos em vários momentos. Difícil é viver e ser coerente o tempo todo, seja com suas ideologias, seja com as pessoas que te cercam, seja consigo mesmo. A gente muda muito, sente muito e se perde muito. A racionalidade é um estado necessário. Não se compra, não se vende, talvez se troque. Difícil é ser racional enquanto se sente contrariado, desafortunado, abandonado. A dor que entra em colapso grita mais forte, e assim a loucura parece ganhar força. O medo transforma, o medo deturpa. O medo gera violência, autoritarismo, insanidade. Ainda que as conquistas sejam escassas, é preferível comemorar e se orgulhar da luta que lamentar o fracasso.
terça-feira, 18 de setembro de 2018
Velho bêbado
Tem um senhor, morador de rua, que vagueia perto da minha casa todos os dias. E, diariamente, ele está bêbado. Seus passos lentos e atrapalhados, como se arrastasse os pés. Seu rosto sempre vermelho e os lábios moles que proferem algumas palavras nonsense em conjunto com pedidos de trocados para mais uma cachaça. Ele vai até o boteco da esquina, todos os dias, frequentado por alcoólatras, de várias classes, assim como ele. Seu bafo pode ser capaz de matar um leão, de tão forte, e seu cheiro misturado à cachaça, sujeira e suor se alastra pelo caminho como uma sombra que permeia um corpo esquecido pelo tempo, pelo cuidado ou por alguma razão de viver. As pessoas fingem não vê-lo, o ignoram. Sua espécie é a mais desprezada nessa sociedade. Ninguém quer ficar perto de alguém nessas condições, ninguém vê humanidade ali. É como um selvagem que em algum momento cedeu à repressão que a própria vida lhe trouxe. Não dá pra saber a história de cada velho bêbado que encontramos nas esquinas, becos e botecos sujos da cidade, ninguém liga. Ninguém quer saber. Mas é interessante se identificar de alguma forma àquela condição, mesmo que tão alheia a nós, que temos uma cama e chuveiro quente. Porque qualquer pessoa em algum momento de desespero já teve vontade de sair correndo. Encher a cara diariamente. Tacar um longo e ressoante foda-se a esse sistema que continua escravizando inocentes, que promove guerras civis, que ainda mata pobres, que nos obriga a sobreviver exaustivamente numa escalada que não tem topo. É mais fácil se identificar com um velho bêbado do que com um engravatado que dá risada alta e não sai do celular enquanto come seu insosso prato de buffet caro no horário de almoço oficial de qualquer bairro comercial da cidade. Porque as vezes esse tipo é tão desprezado e tão invejado quanto o velho bêbado (em sua pseudo-liberdade). Nossos parâmetros comparativos são por vezes tão distorcidos que é difícil encontrar humanidade em cada indivíduo. Será que por que nos falta humanidade também?
quinta-feira, 23 de agosto de 2018
Desmotivação
O título me acompanha como um sobrenome. É o terceiro lugar que eu trabalho este ano e não consigo mais me enxergar motivada. Passam-se alguns meses, semanas, dias, e eu já tô querendo pedir arrêgo. Escrevo este parágrafo duvindo de mim mesma. Porque a vida toda ouvi que a gente tinha que valorizar o nosso trabalho, que uma atitude dessas (chegar atrasada, faltar, o contrário da proatividade) é coisa de gente que não precisa do emprego, principalmente da minha mãe, que depois que virou patroa esqueceu-se como é ser funcionária. Aliás, ela acha que é assim que deve ser, que a gente não pode ficar insatisfeito e buscar por oportunidades melhores, que não pode brigar por melhores condições de trabalho etc. Ela tem mudado o pensamento, mas ainda não entende porque pulo tanto de emprego em emprego. Eu tenho vários motivos - que cansei de explicar. A terapeuta disse que eu me afeto muito com o ambiente e pessoas. Verdade. Eu as odeio. Tá, foi exagero. Tem gente legal e gente cuzona em qualquer lugar. Depender de pessoas, especialmente no ambiente de trabalho, pra encontrar a própria satisfação nunca é um bom caminho. E é essa a minha questão. Eu amava a content e as pessoas, mas estava infeliz no trabalho. Eu odiava a mestiça porque o ambiente era um lixo e não gostava nenhum pouco do meu trabalho. Neste lugar, eu amei o dinheiro, mas não tenho mais paciência e nem alma pra vender pra fazer qualquer esforço em me enturmar pra continuar lá. Por: dinheiro. Não aguento mais buscar por: dinheiro. Já me fodi tanto com a falta dele e com o desemprego que talvez eu devesse agir conforme minha mãe e o Temer acham: não pense, trabalhe. Acontece que então nem tenho como começar porque meu trabalho envolve totalmente o pensar. Se não estou bem, não trabalho bem. Porque toda aquela lavagem cerebral que passei em achar algo positivo na propaganda morreu. Tô quase virando militante anti-publicidade de tanto argumento que encontrei. Vou fazer uma anti-campanha. Criar uma estratégia do caos. Fazer um brainstorm pra chegar na melhor ideia de desordem e algumas peças de anarquismo pra derrubar esse governo golpista e saquear a casa e as contas de quem tem mais de 2 milhões de propriedade e renda líquida. Tudo isso de forma conceitual, o slogan até pode ser: "Distribua seus bens ou renda-se". E o posicionamento: "O poder é nosso". Ah, isso seria um prazer, rs. Sonho de princesa, aliás, de pebleia.
terça-feira, 21 de agosto de 2018
Abuso
No primeiro ano da faculdade, minha referência de jornalista era o Caco Barcellos, autor de dois dos meus livros de investigação jornalística favoritos: O Abusado e Rota 66. O primeiro traz um relato em primeira mão (trabalho de campo), de consistência imparcial - ainda que moderada por própria dificuldade do impacto que a linguagem pode causar - sobre a trajetória do Marcinho VP, líder do Comando Vermelho, da sua ascensão à sua queda, com entrevistas com pessoas próximas, familiares, policiais exonerados etc, tudo numa narrativa concisa e coerente aos fatos. É um livro de mais de 500 páginas que consumi como se fosse um irresistível hambúrguer num dia de TPM. O segundo é uma denúncia indireta - com nomes pouco disfarçados dos personagens - aos comandantes da Rota e dos seus casos de extermínio em massa. O trabalho minucioso e sensível do Caco me encantava, eu sentia que era isso que eu queria fazer. Caco romanceava duas histórias que se confundem, porque em ambas há o abuso da polícia militar e a impotência do cidadão comum de se defender desses abusos e deixar de ser vítima. Quase dois anos depois, comecei um estágio numa editora sendo explorada redatora/repórter assistente de duas revistas, uma de artesanato e outra de gastronomia. Não consigo resumir a série de abusos que vi e vivenciei naqueles insuportáveis 9 meses. Foi a primeira vez que pedi demissão na vida. Ambiente opressor, machista e elitista, onde a maioria, veja bem, era composta por mulheres, desde a recepção à sala da editora-chefe. A editora faliu. Muitos funcionários dali hoje trabalham com a publicidade mais tosca que existe, que é das mídias sociais, feita por ex-jornalistas que escrevem textões sobre produtos achando que estão informando e não vendendo, mídia barata, trabalho sem conceituação, apenas textão explicativo. Gosto de rir porque eu mesma já acreditei nessa mentira e gosto de ver pessoas arrogantes quebrando a cara. É o prazer da vingança indireta. Outros trabalham em jornais de bairro, ganhando pouco e dependendo dos releases da subprefeitura local. Ou seja, não é um trabalho de redação ou reportagem, e sim de edição, você apenas altera parte do conteúdo de um texto escrito por alguém, que tem diversos objetivos, inclusive. Lembrando que press-release é o começo da propaganda, em conjunto com a relações públicas, adentrando o jornalismo. O press-release é o material do assessor de imprensa. É o ópio dele, é quando ele transforma produto em conteúdo, travestido de informação. Naquela mesma época eu já havia aprendido as teorias de pharmakon, e sabia que o que eu trabalhava também era cosmética. Alguns colegas de sala trabalhavam com o veneno, em revistas de fofocas e/ou sensacionalistas. Anos depois, acabei migrando para a publicidade numa agência de health care em que boa parte do meu trabalho era conceituar remédios e, com o tempo, minha linguagem de trabalho foi se transformando. Eu, que acreditava na linguagem como forma de remediar, provei do meu próprio veneno. Caco Barcellos a essa altura já estava em Paris, local onde encontrou exílio após a perseguição (de policiais, políticos e traficantes) dos que trataram O Abusado como um enaltecimento da figura do dono do morro, mas que também expôs muita gente. Na época, o texto de Caco foi comparado ao que fizeram os autores dos livros didáticos sobre a história de Che Guevara: "transformou o bandido num herói". Eu pensava se eu teria culhões de invadir uma zona de guerra, como o Caco, sob o risco de ser morta ou ganhar um Pulitzer, para o orgulho de minha família, enquanto tomava café expresso sentada dentro de um pequeno escritório numa região classe média de São Paulo. Momento confuso da vida. Vivia um relacionamento abusivo. Ganhava pouco mais do que no estágio de 3 anos antes. Minha mãe se recuperava de um câncer. E eu ainda sofria com os pós-efeitos de ataques de gordofobia. Experimentava o desgosto de episódios de anorexia e depressão. E não encontrava mais chão. Continuei por inércia. Passados quase 3 anos no mesmo lugar, mesmos clientes, um salário um pouco maior e um peso nos ombros por conta de todo estresse que aquela situação me causava, depois de vários relacionamentos interpessoais fracassados, várias questões, pessoas e situações difíceis, todas vividas durante esse período, passei a pensar na morte como subterfúgio para um grito interno. Muita coisa mudou depois disso. Hoje, anos e anos depois, encontro questões parecidas, mas notei que em grande parte das escolhas que tomei, das situações opressoras que mantive - e depois corri num impulso de desespero -, eu era a minha principal abusadora. Mas isso só seria possível de se concluir se eu acreditasse que minhas escolhas são inerentes ao ambiente e a todos os fatores que se movimentam ao meu redor, como se eles não me afetassem. Hoje, concluo que a melhor escolha é aquela que é tomada através da crença no próprio juízo do momento, mesmo que se ao olhar para trás, não faça sentido ou você não se reconheça. Pra não dizer mais: fugir de abusos em quaisquer situações, seja no corporativismo, nos relacionamentos afetivos e interpessoais e, claro, antes de tudo, consigo mesmo.
domingo, 5 de agosto de 2018
Alegorias
É o medo compulsório da paranóia. Deixar de ser solo e perder individualidade. A ideia de dividir a vida que é mal digerida. O dorso descoberto para o acaso. Segurança a partir de uma falsa ilusão. Especulação sem sentido. Declínio. Delírio. Certeza. Vulnerabilidade. Discurso teatral. Incoerente. Incerto. Romantizado. Estardalhaço. Sombra do passado. Devaneio. Sono. Tesão. Tensão. Falta de foco. Superestimado. Ego. Orgulho. Amor. Lapso. Dormir.
quarta-feira, 18 de julho de 2018
Hipnotizada
Não gosto mais da ideia de romantizar a vida real, mas de fato sua chegada a suavizou. É quase como se você fosse um oásis no meio desse meu caos pessoal. O sorriso lindo que contagia e me enche de esperança, e agonia. De não ver as horas passarem para te ter nos meus braços novamente. Sentir teu cheiro e me perder no teu abraço. E desejar que teu gosto não suma dos meus lábios. Passo o dia tentando relembrar cada detalhe teu, sob uma incansável obsessão, aspirando o momento de saciar o insaciável. É uma fome que faz o coração retumbar, e entrar em degelo a cada despedida. Essa energia tua que parece arder, de tão quente, e me faz te querer, de tão urgente. Não consigo parar de te olhar, é como se tua visão fosse cosmética, ou puro mel, de tão afável. Odeio ser clichê, poderia inventar a roda pra tentar descrever o que sinto por você, mas sou humana e, assim, me entendo. Que só quero passar o dia entrelaçando os dedos nos teus cabelos, admirando a beleza do teu ser.
sexta-feira, 13 de julho de 2018
Eu não sou líquido
"O presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da ação.", Simone de Beauvoir
quarta-feira, 20 de junho de 2018
A pressa que nos faz comer no prato vazio
Começo com uma questão porque, diferente da maioria dos posts, eu não quero trazer certezas vazias dessa vez. Até porque, continuo me perguntando do porquê da pressa em se ter certezas, sendo que eu assumidamente não as quero. E me sinto hipócrita ao dizer isso porque tenho entendido bem as diferenças entre querer e conseguir. Não sei quando ou porquê me tornei essa pessoa controladora, ou talvez eu sempre tenha sido e não tenha percebido. Até agora. A terapia tem me ajudado em algumas questões, especialmente nesta, que tenho tratado com atenção. E percebo o quanto essa ansiedade tem influenciado completamente nas minhas ações por toda a minha vida. A principal atualmente é a minha necessidade de viver essa paixão descontrolada. Pessoas apaixonadas ficam loucas, porque agem impulsivamente, como drogadas, necessitando seu consumo sabendo que nunca se sentirão saciadas. Tem até estudo pra isso, tem até esse cara aqui, discorrendo maldosamente sobre:
Ontem, após terapia eu me perguntei se poderia me dar ao luxo de aceitar o fato de que o amor da minha vida está do outro lado do oceano. - Talvez eu tenha exagerado em usar "amor da minha vida", mas eu estou apaixonada, ainda, então, posso me dar ao luxo de ser exagerada também? - Eu não sei se é luxo, ou inocência, mas não posso mentir para mim mesma que eu consigo esquecê-lo e, inclusive, que eu deveria ter pressa para isso. O nosso mundo tem pressa e também é muito egocêntrico na hora de te incentivar a seguir outro caminho. É como se toda vez que algo não der certo, você parte para outra (sendo melhor ou não), ou, então, no meu caso, quando eu acho que algo está me fazendo mal, eu tenho que pular fora e, se possível, com um salto tão alto que fica impossível do outro me alcançar. Eu já fiz isso muitas vezes, com pessoas e situações. Eu me sufoco e saio correndo necessitando de ar para preencher meus pulmões vazios. Com ele eu não consegui, e hoje, eu entendo que não preciso. Não preciso também apressar a conveniência de sempre encontrar uma pseudo-solução para tudo. É uma preguiça, de querer resolver as coisas na minha cabeça porque não suporto ficar indecisa ou não ter respostas, isso me perturba, me tira o sono e o chão. Eu também não preciso mais ser essa pessoa, talvez eu devesse entender como melhorar isso. Eu não posso arrancar uma pessoa dentro de mim sendo que na minha mente ela respira profunda e ininterruptamente. Tem coisas que dependem do tempo, que passa num compasso próprio e que ninguém tem controle. E esse passar ilude ou é certeiro, dependendo da sensibilidade individual de cada pessoa. É como na questão sobre ser pássaro ou árvore e a nossa pressa em responder uma pergunta tão cheia de interpretações e tão rica em entendimentos. Ninguém precisa ser um ou outro, nem por ora, nem como imposição, a natureza é tão mutável quanto a gente, ainda bem. Mas, ainda assim, eu procuro criar raízes e talvez essa seja a maior incerteza que tenho me deparado. Tenho pensado bastante sobre ser mãe. Na realidade, penso mais em ter uma filha do que de fato ser mãe. Li sobre a necessidade do controle nesse ato e também sobre a lavagem cerebral que nós, mulheres, sofremos desde os primórdios, sobre a possível realização encontrada na maternidade. Sinto que não estou me confundindo, seja porque estou chegando perto dos 30 - e existe toda a pressão envolvida em ser mãe até essa idade -, ou porque me sinto vazia e acabei de influenciando de alimento alucinógeno ou alienador. Apenas sinto que quero fazer isso algum dia, mais do que uma meta a ser cumprida, sinto que esse momento está chegando. Eu não me imagino passando por qualquer momento da maternidade, mas quero ter a oportunidade em criar uma criança para o mundo, passar meus ensinamentos de alguma forma e vê-la crescendo e se tornando passarinho. É assim que me vejo criando este ninho. Já falei um bilhão de vezes para a terapeuta que não consigo me imaginar dividindo a minha vida com alguém, sendo feliz, construindo família e planos, porque eu nunca tive um relacionamento saudável por muito tempo. Eu fico acreditando que tudo vai dar errado, que o cara vai ser abusivo, que vai ser folgado, etc etc. E, mesmo dentro de um relacionamento, eu nunca consigo ficar muito tempo feliz ao lado da pessoa, sempre algo está errado. Já quis acreditar que é porque não era a pessoa certa, mas lembro que isso aqui é vida real e que deveria ser natural ter relacionamentos saudáveis. Em inúmeras conversas, observando fatos e ouvindo histórias, eu me apeguei muito, ao longo dos anos, à força da mulher, especialmente, ao fato de ser mãe. Devido à história da minha mãe e de todas as referências femininas que estive próxima - eu até tenho certo repúdio por mulheres dependentes e carentes demais, é como se eu as ignorasse (não tem porquê comparar se eu sinto o mesmo repúdio por homens, não tenho essa referência e existe todo um contexto social e histórico para muitas mulheres agirem assim), eu sinto que é algo que eu quero fazer um dia. Ele apareceu e me pareceu como uma promessa para um futuro assim, como eu desejava secretamente, e diferente de outros caras com quem estive, ele tem essa energia supostamente feminina, algo um tanto maternal. É estranho eu ver dessa forma, mas isso é apenas uma característica que eu encontrei e sob meu olhar, mas é um fato que eu também quero ser cuidada. Ao mesmo tempo que tenho essa angústia em não querer depender jamais de um homem, eu preciso admitir que eu quero receber isso. Porém, minha mente me confunde, porque eu também tenho medo de cair na cilada de ser a pessoa que só cuida e foi isso que ele me mostrou que poderia acontecer, à distância, devido aos comportamentos visivelmente manipuladores. Terapeuta concluiu: em qualquer relacionamento - que é sempre uma relação de poder (como ela disse na sessão anterior) - vai existir a dependência e ela vai ser sempre algo negativo ou positivo, e pode ser positivo, ambas as pessoas podem cuidar uma da outra e vice-versa e realmente ser uma relação de parceria, e tudo bem se sentir dependente disso, se for saudável assim. Para finalizar, recitou Tom Jobim: é impossível ser feliz sozinho. Talvez seja verdade, apesar de eu ter discordado tempos atrás. Somos mutáveis, é assim que fala?
segunda-feira, 4 de junho de 2018
Perdi minhas estribeiras
Venho por meio desta declarar meu pavor chamado amor.
Me foi deflagrada a fome, mas alimento, não me resta.
Então, este temor não persiste, porque não existe.
Não quero me enganar, mas de fato, não há concretizar.
Falhei miseravelmente em aceitar, sem balbuciar.
Que amor pela metade, não tem como sustentar.
Toda essa loucura dentro de mim.
___________________________________________________________________________
Dois poemas de Pablo Neruda:
Me foi deflagrada a fome, mas alimento, não me resta.
Então, este temor não persiste, porque não existe.
Não quero me enganar, mas de fato, não há concretizar.
Falhei miseravelmente em aceitar, sem balbuciar.
Que amor pela metade, não tem como sustentar.
Toda essa loucura dentro de mim.
___________________________________________________________________________
Dois poemas de Pablo Neruda:
SONETO XVII
(...)
Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.
Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te diretamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,
a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.
SONETO XLIV
(...)
Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.
O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.
Qual é o meu norte?
Hoje, durante as andanças que indicam os novos caminhos que escolhi trilhar, vi um lambe no muro escrito: "Qual é o norte?", e percebi que talvez eu nunca tive um. A vida toda eu só tomei decisões baseadas na minha impulsividade ou porque estava perdida e precisava de respostas, urgentes. Como sempre, nunca agi conforme uma linha, buscando algo de fato mais concreto. Tudo o que eu tenho em mente é com base no "achar" e no "sentir", coisas que dominam - e perturbam - a minha mente. Uma vez, há quatro anos, uma pessoa me disse que eu era muito leve, muito diferente dela, que era preocupada e com os pés no chão. Mal sabe que ainda a odeio por ter me julgado tão levianamente. Porque eu sou pesada demais. Sensível demais. Ansiosa demais. Incorreta demais. Intensa demais. E problemática demais. Eu não sei viver pela metade, eu apenas sinto e quero dar continuidade a este sentir, porque eu também não sei sentir pouco. Com isso, eu me machuco, não tenho cuidado, nem meias palavras, e esqueço de mim, sempre. Que mal é este, que carrego nos ombros, que não me faz tomar atitudes mais zelosas comigo? Eu tenho que querer tanto assim? Sentir tanto assim? Por que o tempo é sempre meu inimigo? Eu não consigo viver no tempo que essa sociedade doente me obriga a seguir. E com isso, eu gasto mais do que deveria ou acabo sendo extremamente otimista, a um ponto que beira à inocência. Eu não quero ser moldada. Eu apenas queria viver conforme sinto que tenho que agir, sentir, começar, parar, retornar, nunca mais voltar. Eu vivo um momento tão maluco que eu nem sei mais o que eu quero, porque agora, após todas essas tomadas de decisões, eu já não sei se elas fazem sentido, porque o meu sentir me diz o contrário. Desconfio de mim mesma, porque meu discernimento é sempre nebuloso e completamente dependente das minhas emoções momentâneas. Ao mesmo tempo que eu procuro uma vida mais estável e equilibrada, eu nem sei onde encontrar ou como começar. "Seja mais gentil consigo mesma". Eu sei. Mas eu realmente não sei como. Eu tenho esse problema com amar. Não sei se porquê escolho as pessoas erradas, se atraio elas, ou apenas porque a errada sou eu. Talvez um pouco das duas coisas. É muito inconveniente dizer "preciso me afastar de você" poucos dias depois de dizer "eu te amo" e em outra língua. Que confusão fui me meter. Seriam dois meses completamente desperdiçados? Ou uma forma de eu aprender logo que eu tenho que me amar mais antes de querer amar alguém? Que bagunça.
quarta-feira, 9 de maio de 2018
Desfragmentada
Quantas vezes eu vou me perguntar: que merda eu estou fazendo da vida?
Ano passado, mesma coisa, mesma época. A ansiedade mistura com a vontade de meter o louco fica fazendo o meu cérebro fritar até perder o sono por semanas seguidas, até que chega a exaustão. Da euforia à depressão. Meu corpo já grita comigo tentando me salientar que eu estou fazendo errado. E minha mente me convence de que eu sempre faço tudo errado. O que estou esperando tanto para que as coisas fiquem assim? Eu nem sei o que eu estou buscando. Me engano tentando me entreter sem saber o que pensar, o que fazer até chegar este momento em que eu não quero fazer nada. Em que viver é uma lástima. Até a vontade de fugir sumiu, assim tudo vai se transformando na vontade de sumir.
Ano passado, mesma coisa, mesma época. A ansiedade mistura com a vontade de meter o louco fica fazendo o meu cérebro fritar até perder o sono por semanas seguidas, até que chega a exaustão. Da euforia à depressão. Meu corpo já grita comigo tentando me salientar que eu estou fazendo errado. E minha mente me convence de que eu sempre faço tudo errado. O que estou esperando tanto para que as coisas fiquem assim? Eu nem sei o que eu estou buscando. Me engano tentando me entreter sem saber o que pensar, o que fazer até chegar este momento em que eu não quero fazer nada. Em que viver é uma lástima. Até a vontade de fugir sumiu, assim tudo vai se transformando na vontade de sumir.
terça-feira, 1 de maio de 2018
Limpeza de lente e concreto
Eu me encontrei em mim mesma assim que eu percebi que não preciso de muitas coisas para ser feliz. Não preciso de posses, um carro na garagem, uma sensação de extremo conforto financeiro e material, mas sei que preciso de amor, seja de quem for, de amigos, da família, ou de alguém que mal conheço, mas que me faz me enxergar completamente despida de incertezas. A vida tem se mostrado afável comigo, como se eu estivesse prestes a conquistar coisas que eu lutei. O problema é que tudo isso demanda espera e a minha ansiedade me faz me perder às vezes no álcool e na extrema necessidade de me manter em movimento, buscando por uma diversão abusiva e que tem afetado meu bolso e meu corpo. Eu já nem estou mais tentando ser vegetariana nos últimos dias, porque minha fome por viver tem sido tão insaciável que não consigo mais distinguir o que é gula ou fome. Mas eu não caio. Eu me mantenho numa corda bamba sem escorregar, como uma verdadeira equilibrista. Não que eu me sinta equilibrada, não posso mentir para mim mesma, mas porque eu aprendi que como não cair. Eu me sinto forte, como se nada pudesse me abalar e é sob essa força que eu vou lidando com esse presente desgastante e tentando plainar sobre a vida de uma maneira, quase, positiva. Eu sinto que mudei e talvez tenha crescido, provavelmente. Hoje, meus sonhos são outros, eu não tenho mais tesão em fugir e testar loucuras sob outra ótica, porque minha vista estava embaçada e agora tudo parece mais claro para mim. Eu quero mais que trascender, eu quero construir. Nem que seja tijolo por tijolo, e com isso, muito suor, mas argamassa não falta, porque até nisso eu vou conseguir esculpir. Está tudo bem, tudo bem.
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