Neste corpo que me compreende, não me encontro
Adquiri um peso que meus ombros não podem carregar
Os dias passam como meses, e eu não os percebo
Oscilo entre manhãs nubladas e tempestades noturnas
Sem meio termo, com o copo meio vazio
Temo que este recipiente não irá suportar mais
Noto que dias ensolarados borraram na memória
Restando um gosto amargo que arde o estômago
E traz o invólucro a tona, febril e oco
Não reconheço o reflexo, como se me fosse tomado
O corpo não é meu, nem do Estado, é de outrem
Não o controlo, mas sinto todas as suas dores
Gostaria de não sentir, mas não cabe mais a mim escolher
Queria ser universo, mas mal caibo numa agulha
Sou nada, invisível e alienígena
Fui muito, intangível e insaciável
Fui
Sou
Quero
Ainda
Eu pra mim é pouco.
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quarta-feira, 1 de julho de 2020
quinta-feira, 21 de março de 2019
Existe algum lugar?
Existe algum lugar em que eu me encaixe sem que eu me sufoque? Que me faça querer fugir ou gritar ou espernear ou correr pra um abraço? Daqueles que acalentam suficientemente o ego e afagam as dores? Onde eu me encontro nesse abraço? Posso eu abraçar a mim mesma? Posso algum dia parar de me sentir mal por nunca conseguir ser suficiente? Posso realmente ser capaz, sozinha, de revolucionar os paradigmas da minha própria percepção de vida? Quem eu sou que não me encontro de mim mesma? Será que a pergunta deveria ser: o que eu quero? Ou quem quero ser? Ou o que preciso fazer para me sentir melhor na minha própria pele?
Sinto que me falta combustível, mas mais do que isso me falta um lampejo certeiro. Sinto que não quero sentir mais nada porque estou cansada. Quero ser livre.
Sinto que me falta combustível, mas mais do que isso me falta um lampejo certeiro. Sinto que não quero sentir mais nada porque estou cansada. Quero ser livre.
terça-feira, 25 de setembro de 2018
Abandono
Já foi dito que o homem (sic) é um animal social por natureza. Enquanto integrante da sociedade, o ser social depende de suas relações sociais inclusive para sobreviver. Eu não levo em consideração pseudo-eremitas que não pagam aluguel porque vivem com os pais, trancafiados em suas bolhas impenetráveis. Já conheci alguns e a experiência foi mais que péssima, pois minha presença, ou de qualquer outro, só era requisitada para utilidade. Odeio pessoas puramente utilitaristas, ainda que, sabemos que a maioria das relações ainda assim sobrevivem dessa maneira, somos seres sociais, precisamos uns dos outros. Eu sou da multidão, não daquelas dos shows lotados (depende da intenção, claro), mas que leva em consideração a vida em sociedade na sua forma mais pragmática: no desejo e no ensejo do compartilhamento. Na ajuda, no companheirismo, no ideal de igualdade. A gente precisa de individualidade, mas precisa saber estar aberto suficiente para não precisar e pedir mais do que está disposto a doar. É uma via de mão dupla. Sempre digo que odeio pessoas egoístas, perdidas na própria vaidade, que não enxergam dos lados, que sugam e não oferecem nada em troca. Odeio porque meus princípios morais se baseiam nesses fatores citados. Não ter expectativa é uma ilusão. Impor que o outro cumpra com sua expectativa é outra história. É egoísmo? Acredito que ninguém é totalmente altruísta e quem acredita nisso pode ser mais vaidoso do que realmente caridoso. Será que nesse caso os fins justificam os meios? Não sei dizer. Às vezes idealizo demais e, por assim sendo, erro na mesma proporção. Longe de mim sentir as mazelas de um abandono. Que por vezes inconscientemente sentimos em vários momentos. Difícil é viver e ser coerente o tempo todo, seja com suas ideologias, seja com as pessoas que te cercam, seja consigo mesmo. A gente muda muito, sente muito e se perde muito. A racionalidade é um estado necessário. Não se compra, não se vende, talvez se troque. Difícil é ser racional enquanto se sente contrariado, desafortunado, abandonado. A dor que entra em colapso grita mais forte, e assim a loucura parece ganhar força. O medo transforma, o medo deturpa. O medo gera violência, autoritarismo, insanidade. Ainda que as conquistas sejam escassas, é preferível comemorar e se orgulhar da luta que lamentar o fracasso.
terça-feira, 18 de setembro de 2018
Velho bêbado
Tem um senhor, morador de rua, que vagueia perto da minha casa todos os dias. E, diariamente, ele está bêbado. Seus passos lentos e atrapalhados, como se arrastasse os pés. Seu rosto sempre vermelho e os lábios moles que proferem algumas palavras nonsense em conjunto com pedidos de trocados para mais uma cachaça. Ele vai até o boteco da esquina, todos os dias, frequentado por alcoólatras, de várias classes, assim como ele. Seu bafo pode ser capaz de matar um leão, de tão forte, e seu cheiro misturado à cachaça, sujeira e suor se alastra pelo caminho como uma sombra que permeia um corpo esquecido pelo tempo, pelo cuidado ou por alguma razão de viver. As pessoas fingem não vê-lo, o ignoram. Sua espécie é a mais desprezada nessa sociedade. Ninguém quer ficar perto de alguém nessas condições, ninguém vê humanidade ali. É como um selvagem que em algum momento cedeu à repressão que a própria vida lhe trouxe. Não dá pra saber a história de cada velho bêbado que encontramos nas esquinas, becos e botecos sujos da cidade, ninguém liga. Ninguém quer saber. Mas é interessante se identificar de alguma forma àquela condição, mesmo que tão alheia a nós, que temos uma cama e chuveiro quente. Porque qualquer pessoa em algum momento de desespero já teve vontade de sair correndo. Encher a cara diariamente. Tacar um longo e ressoante foda-se a esse sistema que continua escravizando inocentes, que promove guerras civis, que ainda mata pobres, que nos obriga a sobreviver exaustivamente numa escalada que não tem topo. É mais fácil se identificar com um velho bêbado do que com um engravatado que dá risada alta e não sai do celular enquanto come seu insosso prato de buffet caro no horário de almoço oficial de qualquer bairro comercial da cidade. Porque as vezes esse tipo é tão desprezado e tão invejado quanto o velho bêbado (em sua pseudo-liberdade). Nossos parâmetros comparativos são por vezes tão distorcidos que é difícil encontrar humanidade em cada indivíduo. Será que por que nos falta humanidade também?
quinta-feira, 23 de agosto de 2018
Desmotivação
O título me acompanha como um sobrenome. É o terceiro lugar que eu trabalho este ano e não consigo mais me enxergar motivada. Passam-se alguns meses, semanas, dias, e eu já tô querendo pedir arrêgo. Escrevo este parágrafo duvindo de mim mesma. Porque a vida toda ouvi que a gente tinha que valorizar o nosso trabalho, que uma atitude dessas (chegar atrasada, faltar, o contrário da proatividade) é coisa de gente que não precisa do emprego, principalmente da minha mãe, que depois que virou patroa esqueceu-se como é ser funcionária. Aliás, ela acha que é assim que deve ser, que a gente não pode ficar insatisfeito e buscar por oportunidades melhores, que não pode brigar por melhores condições de trabalho etc. Ela tem mudado o pensamento, mas ainda não entende porque pulo tanto de emprego em emprego. Eu tenho vários motivos - que cansei de explicar. A terapeuta disse que eu me afeto muito com o ambiente e pessoas. Verdade. Eu as odeio. Tá, foi exagero. Tem gente legal e gente cuzona em qualquer lugar. Depender de pessoas, especialmente no ambiente de trabalho, pra encontrar a própria satisfação nunca é um bom caminho. E é essa a minha questão. Eu amava a content e as pessoas, mas estava infeliz no trabalho. Eu odiava a mestiça porque o ambiente era um lixo e não gostava nenhum pouco do meu trabalho. Neste lugar, eu amei o dinheiro, mas não tenho mais paciência e nem alma pra vender pra fazer qualquer esforço em me enturmar pra continuar lá. Por: dinheiro. Não aguento mais buscar por: dinheiro. Já me fodi tanto com a falta dele e com o desemprego que talvez eu devesse agir conforme minha mãe e o Temer acham: não pense, trabalhe. Acontece que então nem tenho como começar porque meu trabalho envolve totalmente o pensar. Se não estou bem, não trabalho bem. Porque toda aquela lavagem cerebral que passei em achar algo positivo na propaganda morreu. Tô quase virando militante anti-publicidade de tanto argumento que encontrei. Vou fazer uma anti-campanha. Criar uma estratégia do caos. Fazer um brainstorm pra chegar na melhor ideia de desordem e algumas peças de anarquismo pra derrubar esse governo golpista e saquear a casa e as contas de quem tem mais de 2 milhões de propriedade e renda líquida. Tudo isso de forma conceitual, o slogan até pode ser: "Distribua seus bens ou renda-se". E o posicionamento: "O poder é nosso". Ah, isso seria um prazer, rs. Sonho de princesa, aliás, de pebleia.
sábado, 18 de agosto de 2018
Mulher fácil
Não importa sua linha de frente ou de estudos, você sempre estará fadada a sofrer com a face mais bruta do machismo - porquê você tem conhecimento, já disse alguém que a ignorância é uma benção -, especialmente quando você mantém relações heterossexuais. Porque o homem do seu lado sempre será um homem hétero e independente da cor, da classe, da origem e da luta dele, ao lado dele você sempre enfrentará situações de opressão. Porque você sempre será a mulher da relação e trará todo estigma que isso traz. Você sempre será a pessoa menos benquista. Sempre será aquela motivo de confusão e competição. Ninguém olhará pra você sem antes trazer dois mil artifícios pra te reduzir à figura da mulher, da frágil e extremamente subestimável. Você nunca será boa o bastante. Nem pra ele, nem pras pessoas ao seu redor, nem pra sociedade, que te condena desde o útero. Você sempre será quem carregará o peso do machismo no seu ombro, porque para o homem ao seu lado é só uma questão de compreensão. De esforço. E a maioria das pessoas não quer se esforçar pra entender o outro. Dá trabalho. Cansa. Ainda mais se pensar que poderia ser mais fácil. Claro, se você fosse mais fácil. Mas, no fim, você sempre estará sozinha nessa questão.
domingo, 5 de agosto de 2018
Alegorias
É o medo compulsório da paranóia. Deixar de ser solo e perder individualidade. A ideia de dividir a vida que é mal digerida. O dorso descoberto para o acaso. Segurança a partir de uma falsa ilusão. Especulação sem sentido. Declínio. Delírio. Certeza. Vulnerabilidade. Discurso teatral. Incoerente. Incerto. Romantizado. Estardalhaço. Sombra do passado. Devaneio. Sono. Tesão. Tensão. Falta de foco. Superestimado. Ego. Orgulho. Amor. Lapso. Dormir.
segunda-feira, 4 de junho de 2018
Qual é o meu norte?
Hoje, durante as andanças que indicam os novos caminhos que escolhi trilhar, vi um lambe no muro escrito: "Qual é o norte?", e percebi que talvez eu nunca tive um. A vida toda eu só tomei decisões baseadas na minha impulsividade ou porque estava perdida e precisava de respostas, urgentes. Como sempre, nunca agi conforme uma linha, buscando algo de fato mais concreto. Tudo o que eu tenho em mente é com base no "achar" e no "sentir", coisas que dominam - e perturbam - a minha mente. Uma vez, há quatro anos, uma pessoa me disse que eu era muito leve, muito diferente dela, que era preocupada e com os pés no chão. Mal sabe que ainda a odeio por ter me julgado tão levianamente. Porque eu sou pesada demais. Sensível demais. Ansiosa demais. Incorreta demais. Intensa demais. E problemática demais. Eu não sei viver pela metade, eu apenas sinto e quero dar continuidade a este sentir, porque eu também não sei sentir pouco. Com isso, eu me machuco, não tenho cuidado, nem meias palavras, e esqueço de mim, sempre. Que mal é este, que carrego nos ombros, que não me faz tomar atitudes mais zelosas comigo? Eu tenho que querer tanto assim? Sentir tanto assim? Por que o tempo é sempre meu inimigo? Eu não consigo viver no tempo que essa sociedade doente me obriga a seguir. E com isso, eu gasto mais do que deveria ou acabo sendo extremamente otimista, a um ponto que beira à inocência. Eu não quero ser moldada. Eu apenas queria viver conforme sinto que tenho que agir, sentir, começar, parar, retornar, nunca mais voltar. Eu vivo um momento tão maluco que eu nem sei mais o que eu quero, porque agora, após todas essas tomadas de decisões, eu já não sei se elas fazem sentido, porque o meu sentir me diz o contrário. Desconfio de mim mesma, porque meu discernimento é sempre nebuloso e completamente dependente das minhas emoções momentâneas. Ao mesmo tempo que eu procuro uma vida mais estável e equilibrada, eu nem sei onde encontrar ou como começar. "Seja mais gentil consigo mesma". Eu sei. Mas eu realmente não sei como. Eu tenho esse problema com amar. Não sei se porquê escolho as pessoas erradas, se atraio elas, ou apenas porque a errada sou eu. Talvez um pouco das duas coisas. É muito inconveniente dizer "preciso me afastar de você" poucos dias depois de dizer "eu te amo" e em outra língua. Que confusão fui me meter. Seriam dois meses completamente desperdiçados? Ou uma forma de eu aprender logo que eu tenho que me amar mais antes de querer amar alguém? Que bagunça.
terça-feira, 1 de maio de 2018
Last day of magic
Você foi o mais próximo do que eu poderia sonhar. E eu sonho muito, mas nunca vou muito além porque a vida me ensinou a ser realista. E, às vezes, pessimista. Sonhamos juntos, mas o peso da realidade endureceu muito antes que pudéssemos concretizar algo. "A vida é como um sonho, acordar é que nos mata", disse Virginia Wolff. Você despertou para a sua realidade e esqueceu-se deles. E assim, eu sigo te esquecendo mais a cada dia.
domingo, 17 de julho de 2016
As mãos que descascam uma mexerica
O dia em que não puder mais descascar uma tangerina com as minhas próprias mãos significa que parte de mim está morrendo.
Lembrando que toda morte representa também o renascimento, uma nova vida. Então, se há vida, vamos brindá-la.
Caipirinha de sakê e tangerina.
"Devemos amar mais a vida do que o sentido da vida." - Fiódor Dostoiévski
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Dor na coluna, a resposta da dúvida
Sinto uma dor na coluna, há duas semanas, sem qualquer razão. A mesma dor tem afetado meu sono, que também não está da melhor qualidade, assim como tem me impedido de ir na academia nos últimos dias. Ela causa um desconforto que pulsa da coluna vertebral às costelas. Como um incômodo que lateja, persistente. Como uma dúvida sem conclusão. Um pensamento que não se completa, mas permanece aberto, sem cicatrizar.
Em alguns dias completo 26 anos e, com a espera involuntária pela chegada deste dia, vem a ânsia, a insônia e a dúvida. O que eu quero da minha vida? Eu quero continuar neste emprego? Quero casar e ter filhos? Quero largar tudo e ir morar na praia? E tantos pensamentos parecem cada vez menos importantes - mas não menos frequentes - do que a preocupação com dinheiro, necessidade de felicidade e relacionamentos interpessoais.
Encontrei uma luz que, metaforicamente (por favor), me mostrou o que eu desejo, o que substancialmente poderá me fazer feliz. Sei que essa felicidade é superestimada muitas vezes, ninguém é feliz todo dia fazendo o que escolheu pra vida, mas também já sei o que não quero. E o que eu não quero é cometer os mesmos erros.
Sinto que amadureci lendo anotações de um ano atrás, mas os questionamentos, ah, esses persistem e insistem. Causam dúvidas, fraquejamentos e perturbações. Me pergunto o que faz as pessoas felizes. Seria uma casa grande? Um passaporte cheio de carimbos? O emprego dos sonhos? O carro do ano? Filhos e animais de estimação? Essas coisas me trariam felicidade? Ou eu só tenho que fazer um pouco do que gosto a cada dia (e, de preferência, cada vez menos do que não me agrada)?
Tive momentos de fúria e caos mental, quis a morte como subterfúgio para meus pensamentos incansáveis e pseudo-suicidas, me afoguei e continuo na orla por não saber nadar. As águas turvas me trouxeram à superfície, como se me salvassem. Ou seriam minhas nadadeiras tentando se mover? A verdade é que não sou filha de peixe, aliás, até sou, mas não fui aprendiz porque voei demais. E talvez seja no ar, com os pés longe do chão, que eu poderia me encontrar.
Da lama veio a sobriedade. Não que significassem caminhos consequentes, mas a exaustão me trouxe o oco, e esse vazio precisa ser completado. Sem dor, nem pressão, apenas, completado até a borda. Eu não sou líquido, mas evaporei.
Sinto que amadureci lendo anotações de um ano atrás, mas os questionamentos, ah, esses persistem e insistem. Causam dúvidas, fraquejamentos e perturbações. Me pergunto o que faz as pessoas felizes. Seria uma casa grande? Um passaporte cheio de carimbos? O emprego dos sonhos? O carro do ano? Filhos e animais de estimação? Essas coisas me trariam felicidade? Ou eu só tenho que fazer um pouco do que gosto a cada dia (e, de preferência, cada vez menos do que não me agrada)?
Tive momentos de fúria e caos mental, quis a morte como subterfúgio para meus pensamentos incansáveis e pseudo-suicidas, me afoguei e continuo na orla por não saber nadar. As águas turvas me trouxeram à superfície, como se me salvassem. Ou seriam minhas nadadeiras tentando se mover? A verdade é que não sou filha de peixe, aliás, até sou, mas não fui aprendiz porque voei demais. E talvez seja no ar, com os pés longe do chão, que eu poderia me encontrar.
Da lama veio a sobriedade. Não que significassem caminhos consequentes, mas a exaustão me trouxe o oco, e esse vazio precisa ser completado. Sem dor, nem pressão, apenas, completado até a borda. Eu não sou líquido, mas evaporei.
sábado, 20 de fevereiro de 2016
Canto da oprimida
Nasci mulher. Nasci o com o peso que o gênero imposto carrega. Nasci sob a preocupação da mãe que repensa o quanto o mundo é perigoso para a mulher. E cresci. Cresci sob o receio de virar puta, vagabunda e inútil. Cresci com medo. Medo de andar na rua. Sozinha. Ou acompanhada. Medo de ser assaltada. Assediada. Estuprada. Medo de morrer. De bala perdida. Sequestro. Ou assassinato. Medo intenso, que faz as pernas tremerem e o coração acelerar. A cada vez que um homem se aproxima. Nas ruas vazias. Nas ruas escuras. Medo de virar puta. Vagabunda. Ou inútil. Medo de meninos. Medo de homens. Medo de desejo. Nasci hétero, sem ao menos me deixarem escolher o que eu queria ser. Ou gostar. Melhor dizendo. Assim permaneci. Compreendi. Que era do gênero opressor que eu gostava.
Oprimir
Oprime o ventre, dando-lhe a única utilidade de satisfazer seu desejo
Oprime a fala, com arrogância e desempatia. Com agressividade
Oprime a dor. Chama de frescura, falta de louça
Oprime o clamor. Chama de louca. Histérica
Oprime a liberdade, ordenando que o que deve ser feito é em função dele
Oprime a individualidade, com a falsa ideia de amor. Julgamentos inválidos
Oprime o sexo, pensando apenas no próprio seu falo.
***
Oprime o ventre, dando-lhe a única utilidade de satisfazer seu desejo
Oprime a fala, com arrogância e desempatia. Com agressividade
Oprime a dor. Chama de frescura, falta de louça
Oprime o clamor. Chama de louca. Histérica
Oprime a liberdade, ordenando que o que deve ser feito é em função dele
Oprime a individualidade, com a falsa ideia de amor. Julgamentos inválidos
Oprime o sexo, pensando apenas no próprio seu falo.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Velha repugnante
Outro dia te disse que meu maior medo era de me tornar uma velha repugnante, que vivesse infeliz e temente à morte. Sem perspectivas de vida, solitária e sendo traída pelo marido. Sem entender por que sua vida havia se transformado nesse marasmo sem sentido e sem brilho. Você me disse que não entendia como eu poderia ser tão pessimista e que nos imaginava felizes e vivendo uma vida com toda a plenitude que representa a união de dois amantes. Então lhe revelei que essa minha visão independia da sua presença e que eu não me imagino sendo feliz ao lado de alguém, vivendo essa felicidade imposta pelo patriarcado e saindo sorridentes em fotos de família. É difícil me imaginar sendo feliz. Talvez seja porque minha concepção sobre a felicidade é distorcida, afinal, nunca consegui apreciar esse sentimento por muito tempo, pois algo de ruim sempre acontecia para estimular pesadelos. Não sei se conseguirei visualizar um futuro doce e bonito, mas sei que tenho muitas coisas para realizar, coisas que me trarão felicidade. Não sei se irei vivê-las ao seu lado, é muito peso para colocar sob sua figura, é criar expectativas que estariam longe de serem cumpridas. Acho que aprendo que amar é isso. Ama-se hoje, com os pés no chão, e quando for possível flutuar, ama-se o sonho. Haverá terra para ancorar nossos sonhos? Não faço ideia, só espero não me tornar uma velha repugnante antes disso.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Diálogos - narrações
Era um fim de tarde típico de primavera, o céu demorava mais para escurecer, dando ao dia a oportunidade de ser mais longo. Era possível ver o sol encolher seus feixes de luz ao horizonte, o que promovia uma visão esplendorosa em que uma paleta de tintas parecia brigar no céu. Enquanto isso, íamos caminhando, os três, cada um para seu respectivo lar, que não ficava a muitas quadras de distância uns dos outros. Eu admirava os cabelos dela, que eram de um cacheado tão preciso que beiravam à perfeição, assim como sua pele cor de chocolate, tão brilhante que lembrava um bombom.
Cheguei em casa e eles não estavam. Não me perguntei aonde teriam ido, mas se haveria janta aquela noite, pois me causava arrepios me imaginar comendo pão com mortadela novamente.
Passava das 22 horas e nada deles. Por que me largaram desse jeito? Pensei em ligar para a tia Mari, mas desisti ao lembrar do mau odor de sua casa e da quantidade de pelos de seus 13 gatos espelhados pelo tapete de seu pequeno apartamento. Contei para xxxxx e xxx no nosso grupo de mensagens. Eles apenas recomendaram: hora de atacar a cozinha. Levantei do sofá e caminhei vagarosamente até à garagem para pegar a escada. Com muita dificuldade consegui arrastá-la até a cozinha, imaginando quantas broncas tomaria de mamãe se ela descobrisse minha tramagem, mas recordei que minha fome era culpa dela e então o remorso passou. Então levei-a ao encontro do lugar proibido: o armário de guloseimas. Lacei mão sobre as batatinhas, biscoitos recheados e chocolates. Tudo o que eu só poderia comer se fosse obediente estava, finalmente, à disposição do meu desejo de devorar tudo.
Me perguntei inúmeras vezes que lugar era aquele, mas ao entrar na primeira sala pude avistar a imagem do paraíso: uma mesa repleta de comidas. Tudo parecia incrivelmente delicioso, havia uma torre de cupcakes com coberturas e confeitos de todas as formas e cores. Cachorro-quente, hamburgueres, bolo de chocolate, coxinhas, gelatina colorida, brigadeiros e pudins. Depois disso tinha a certeza de que estava no céu. "Obrigado Deus todo poderoso! Sabia que você reconheceria meus bons hábitos e obediência que meus pais nunca perceberam", mandei beijo para o teto e corri em direção à mesa.
Comemos tudo o que foi possível e o suficiente para não saber se arrotava à chocolate ou a cachorro quente, mas posso dizer que me sentia mais do que satisfeita e os dois pareciam sentir o mesmo. Nosso extase era tanto que começamos a rir sem parar e sem qualquer motivo. Olhava para a boca toda suja de suspiro de xxx e caia na gargalhada. Foi então que os bolinhos pareciam derreter, tentei segurá-los mas começaram a despedaçar pelas minhas mãos
***
Cheguei em casa e eles não estavam. Não me perguntei aonde teriam ido, mas se haveria janta aquela noite, pois me causava arrepios me imaginar comendo pão com mortadela novamente.
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Passava das 22 horas e nada deles. Por que me largaram desse jeito? Pensei em ligar para a tia Mari, mas desisti ao lembrar do mau odor de sua casa e da quantidade de pelos de seus 13 gatos espelhados pelo tapete de seu pequeno apartamento. Contei para xxxxx e xxx no nosso grupo de mensagens. Eles apenas recomendaram: hora de atacar a cozinha. Levantei do sofá e caminhei vagarosamente até à garagem para pegar a escada. Com muita dificuldade consegui arrastá-la até a cozinha, imaginando quantas broncas tomaria de mamãe se ela descobrisse minha tramagem, mas recordei que minha fome era culpa dela e então o remorso passou. Então levei-a ao encontro do lugar proibido: o armário de guloseimas. Lacei mão sobre as batatinhas, biscoitos recheados e chocolates. Tudo o que eu só poderia comer se fosse obediente estava, finalmente, à disposição do meu desejo de devorar tudo.
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Me perguntei inúmeras vezes que lugar era aquele, mas ao entrar na primeira sala pude avistar a imagem do paraíso: uma mesa repleta de comidas. Tudo parecia incrivelmente delicioso, havia uma torre de cupcakes com coberturas e confeitos de todas as formas e cores. Cachorro-quente, hamburgueres, bolo de chocolate, coxinhas, gelatina colorida, brigadeiros e pudins. Depois disso tinha a certeza de que estava no céu. "Obrigado Deus todo poderoso! Sabia que você reconheceria meus bons hábitos e obediência que meus pais nunca perceberam", mandei beijo para o teto e corri em direção à mesa.
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Comemos tudo o que foi possível e o suficiente para não saber se arrotava à chocolate ou a cachorro quente, mas posso dizer que me sentia mais do que satisfeita e os dois pareciam sentir o mesmo. Nosso extase era tanto que começamos a rir sem parar e sem qualquer motivo. Olhava para a boca toda suja de suspiro de xxx e caia na gargalhada. Foi então que os bolinhos pareciam derreter, tentei segurá-los mas começaram a despedaçar pelas minhas mãos
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