domingo, 17 de julho de 2016

As mãos que descascam uma mexerica


O dia em que não puder mais descascar uma tangerina com as minhas próprias mãos significa que parte de mim está morrendo.


Lembrando que toda morte representa também o renascimento, uma nova vida. Então, se há vida, vamos brindá-la.

Caipirinha de sakê e tangerina.

"Devemos amar mais a vida do que o sentido da vida." - Fiódor Dostoiévski

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Dor na coluna, a resposta da dúvida


Sinto uma dor na coluna, há duas semanas, sem qualquer razão. A mesma dor tem afetado meu sono, que também não está da melhor qualidade, assim como tem me impedido de ir na academia nos últimos dias. Ela causa um desconforto que pulsa da coluna vertebral às costelas. Como um incômodo que lateja, persistente. Como uma dúvida sem conclusão. Um pensamento que não se completa, mas permanece aberto, sem cicatrizar.
Em alguns dias completo 26 anos e, com a espera involuntária pela chegada deste dia, vem a ânsia, a insônia e a dúvida. O que eu quero da minha vida? Eu quero continuar neste emprego? Quero casar e ter filhos? Quero largar tudo e ir morar na praia? E tantos pensamentos parecem cada vez menos importantes - mas não menos frequentes - do que a preocupação com dinheiro, necessidade de felicidade e relacionamentos interpessoais.
Encontrei uma luz que, metaforicamente (por favor), me mostrou o que eu desejo, o que substancialmente poderá me fazer feliz. Sei que essa felicidade é superestimada muitas vezes, ninguém é feliz todo dia fazendo o que escolheu pra vida, mas também já sei o que não quero. E o que eu não quero é cometer os mesmos erros.
Sinto que amadureci lendo anotações de um ano atrás, mas os questionamentos, ah, esses persistem e insistem. Causam dúvidas, fraquejamentos e perturbações. Me pergunto o que faz as pessoas felizes. Seria uma casa grande? Um passaporte cheio de carimbos? O emprego dos sonhos? O carro do ano? Filhos e animais de estimação? Essas coisas me trariam felicidade? Ou eu só tenho que fazer um pouco do que gosto a cada dia (e, de preferência, cada vez menos do que não me agrada)?
Tive momentos de fúria e caos mental, quis a morte como subterfúgio para meus pensamentos incansáveis e pseudo-suicidas, me afoguei e continuo na orla por não saber nadar. As águas turvas me trouxeram à superfície, como se me salvassem. Ou seriam minhas nadadeiras tentando se mover? A verdade é que não sou filha de peixe, aliás, até sou, mas não fui aprendiz porque voei demais. E talvez seja no ar, com os pés longe do chão, que eu poderia me encontrar.
Da lama veio a sobriedade. Não que significassem caminhos consequentes, mas a exaustão me trouxe o oco, e esse vazio precisa ser completado. Sem dor, nem pressão, apenas, completado até a borda. Eu não sou líquido, mas evaporei.  

quinta-feira, 10 de março de 2016

Carol Peletier, férias e feminismo

Algumas semanas depois do carnaval, percebi que precisava descansar. A fadiga me subia pelas pernas e era conduzida por cada artéria, penetrando em cada poro até totalizar meu corpo, deixando-o completamente pesado. Percebi que minha ansiedade também estava às alturas e que desacelerar era mais que preciso. Chorei por duas semanas seguidas, todos os dias, ao me levantar para (não querer) ir trabalhar. Foi uma lástima nunca vivenciada.

É final de fevereiro, tive recesso no começo do ano e folga no carnaval, mas por que merda estou assim? Não sei. Até sei. Mas aqui, vou me abster em declarar apenas que meu corpo e minha mente pediram socorro - e minha mãe, que me disse que eu estava deprimida. Sofrimentos à parte, finalmente os dez esperados dias de fazer porra nenhuma férias chegaram. Embarquei numa maratona de descanso, muito sono, comidas deliciosas e frescas, muita arrumação (e desarrumação) no lar, momentos gostosos e de preguiça ao lado de momô, idas e vindas ao mercado e à casa de mamãe, papai e sistra, alguns momentos ao lado de amigos, e também muitos filmes e séries. E, claro, muito silêncio, ainda bem. Em um desses dias, entediada, resolvi que era a hora de colocar The Walking Dead em dia. Parei na terceira temporada faz mais de um ano, por preguiça e também porque não aguentava mais os assustadores pesadelos com zumbis que tive nesse tempo.

Sim, sou uma pessoa que se impressiona fácil com algumas coisas e as injeta, letalmente, em seu subconsciente, saciando-o por completo. Devo dizer que fiquei impressionada com a série, não sei se era o tédio ou a emoção provocada pelas cenas de ação, mas tenho alguns motivos além: personagens evoluindo entre conversas profundas sobre questionamentos existenciais. Que delícia! Mas, cito a série aqui principalmente por outra razão: a personagem Carol e meu antigo ódio por ela.

Detestava sua submissão ao marido e não dei qualquer mérito por ela tê-lo enfrentado antes de sua morte. No entanto, meu ódio era por ela inteira, tanto fisicamente, quanto pelas suas atitudes e, principalmente, por seu flerte com Daryl, meu personagem favorito quando comecei a ver a série (há quase três anos, acho). Achava ridículo ela investir nele, mesmo ela sendo uma mulher livre (até demais, tadinha, pois também perdeu a filha), e acredito que sentia tudo isso muito mais por ela ser velha, do que por ciúmes, ou coisa do tipo. Eu achava que Daryl deveria ficar com uma mulher mais bonita e que tivesse uma idade próxima, pois acreditava que isso seria mais aceitável, apesar de que não gostaria de vê-lo com qualquer outra pessoa. Sim, rolou um fanatismo adolescente na época, acontece.

Devo dizer que para se entender melhor esta confissão, é preciso levar em conta meu ser naquela fase. Estava afastada no feminismo, havia acabado de sair de um relacionamento abusivo (ou ainda estava nele, não lembro) e tinha perdido, naquele ano, cerca de 20 quilos. 13, fazendo reeducação alimentar e exercícios, e mais 6 só de estresse. Não sei explicar tudo isso, só sei que aconteceu. Por isso, era muito fácil para mim odiar a Carol, uma mulher forte, empoderada e firme em suas convicções e desejos, mesmo passando por vários lutos, vivendo durante o apocalipse zumbi (é) e sendo totalmente fora do padrão ideal de heroína que estamos acostumados: novinha, gostosa, de cabelos compridos e lisos, sedutora.

Era uma época em que eu tinha muitos medos e surfava pela vida como quem só leva caldo na cabeça, mas continua boiando. Certeza que seria a primeira personagem a morrer na série (a não ser que fosse necessário cumprir cota de asiáticos e eu fosse uma espécie de Michonne+Psylocke). Confirmava com exatidão uma frase da Kelly Osbourne, em que ela disse que uma ex-gorda nunca se sentirá magra. De fato, eu estava no meu peso "ideal", mas parecia magra, porque emagreci muito rápido. Estava flácida, cansada e triste. Foi um momento difícil.

Mas ok, superei, cresci e evolui (acredito e espero). E hoje, com meus olhos treinados e despida de pré-conceitos, pude ver uma Carol de um jeito que não esperava. A admirei e torci por ela, chorei com ela em algumas cenas e me questionei, uma porrada de vezes: como eu odiava essa mulher? E, outra dúvida gritante: por que o Daryl não ficou com ela? Ela é sábia, poderosa e amadureceu de um jeito brutal. De mulher frágil que apanhava do marido, ela se tornou uma das cabeças e braços mais inteligentes e fortes do núcleo, tomou decisões difíceis, mas sobreviveu e ajudou outros a sobreviverem. Como fui estúpida, preconceituosa e babaca, pensei. E, na verdade, notei que ela não precisa do Daryl, assim como nunca precisou de qualquer homem. Ela mostrou isso, mais do que uma, duas ou três vezes. Que mulher foda!

Pois bem, meu último dia de férias termina com uma nova tentativa de reeducação alimentar e com o objetivo de começar na academia semana que vem. Não por desespero e necessidade de atingir um padrão impossível e desnecessário, mas porque sinto que meu corpo pede novamente por cuidados, afim de evitar mais carga estressante, mais dias de "como estou horrorosa" e para que eu possa me amar ainda mais. E também com algumas lágrimas, porque estou de tpm e tudo me emociona, além de um flan de chocolate light que me espera na sobremesa. :) Também comecei um laboratório de roteiro para webdocumentário em um coletivo feminista. Sim, vai sair vídeo feminista logo menos. Sim, vai ter meu dedo no meio e meu nome nos créditos! :D

Mas, antes que eu me esqueça: me desculpa Carol, por ter sido injusta com você, com sua luta, que é muito mais importante que sua aparência, que é linda, por sinal. Me perdoe pelos pensamentos provenientes de senso comum e cruéis que tive de e por você. Perdoe a minha ignorância, minha desonestidade, minha falta de sororidade, de empatia e até de humanidade.Vida longa à Carol Peletier, minha nova heroína! Abaixo, a foto das minhas personagens favoritas:


E essa é a sobremesa que me gabei acima. Dica: cuidado com o que você faz no micro-ondas, afinal, panela velha é que faz comida boa! 

Bem, dias de preguiça, dias de glória! Agora, voltamos aos trabalhos!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Um grande foda-se aos vampiros do meu dia a dia

Gostaria que parassem de me trazer seus problemas. Assim como sua pressa e falta de empatia. Que parassem de achar que meu ouvido é de concreto e minha paciência infinita. Que estou sempre disposta a ouvir sem responder como estou. Ou quando tentam incitar atitudes com o objetivo de me fazer perceber algo que não querem me dizer. Porque eu não guardo qualquer desejo em compactuar com relações que não me ofereçam uma troca justa e nem de tentar adivinhar o que lhe aflige. E se tentarem forçar, me fazendo sentir coagida e obrigada, eu certamente me afastarei, porque há muito tempo decidi me abster de relações abusivas. Invadir minha privacidade, me esgota, me sufoca e me faz perder automaticamente o interesse em você. Me deixem em paz, malditos sugadores! Eu espero que se fodam e não, não vou querer saber. Sejam mais independentes, autosuficientes,
se virem! Fodam-se!
Não quero saber o que fazem em suas medíocres rotinas, não quero saber do autor do seu (único) best seller favorito. Nem do seu contestável e pobre gosto musical. Nem do seu péssimo linguajar. Muito menos da sua dieta, do produto que usa no cabelo ou dos dez quilos que você quer perder. E de sua falta de bom senso em qualquer conversa que você precisa interromper os outros pra falar. Porque sua necessidade de autoafirmação é tão profunda que se iguala a sua carência em ser o centro das atenções. Sua estupidez me cansa. Sua incapacidade de pensar antes de falar só me faz ter desprezo pelo que sai de sua boca.
Não, não sou sua amiga e nada tenho em comum com você. Não me compare. Pare de esperar complacência e companheirismo de minha parte porque eu não quero! Não quero você perto de mim, não quero te apresentar meu namorado, muito menos minha família e meus amigos íntimos. Não quero que dê opiniões desnecessárias sobre a minha intimidade e não, NÃO e NÃO quero conhecer a sua! Sai de perto de mim!

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Canto da oprimida

Nasci mulher. Nasci o com o peso que o gênero imposto carrega. Nasci sob a preocupação da mãe que repensa o quanto o mundo é perigoso para a mulher. E cresci. Cresci sob o receio de virar puta, vagabunda e inútil. Cresci com medo. Medo de andar na rua. Sozinha. Ou acompanhada. Medo de ser assaltada. Assediada. Estuprada. Medo de morrer. De bala perdida. Sequestro. Ou assassinato. Medo intenso, que faz as pernas tremerem e o coração acelerar. A cada vez que um homem se aproxima. Nas ruas vazias. Nas ruas escuras. Medo de virar puta. Vagabunda. Ou inútil. Medo de meninos. Medo de homens. Medo de desejo. Nasci hétero, sem ao menos me deixarem escolher o que eu queria ser. Ou gostar. Melhor dizendo. Assim permaneci. Compreendi. Que era do gênero opressor que eu gostava.

***

Oprimir

Oprime o ventre, dando-lhe a única utilidade de satisfazer seu desejo
Oprime a fala, com arrogância e desempatia. Com agressividade
Oprime a dor. Chama de frescura, falta de louça
Oprime o clamor. Chama de louca. Histérica
Oprime a liberdade, ordenando que o que deve ser feito é em função dele
Oprime a individualidade, com a falsa ideia de amor. Julgamentos inválidos
Oprime o sexo, pensando apenas no próprio seu falo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Velha repugnante

Outro dia te disse que meu maior medo era de me tornar uma velha repugnante, que vivesse infeliz e temente à morte. Sem perspectivas de vida, solitária e sendo traída pelo marido. Sem entender por que sua vida havia se transformado nesse marasmo sem sentido e sem brilho. Você me disse que não entendia como eu poderia ser tão pessimista e que nos imaginava felizes e vivendo uma vida com toda a plenitude que representa a união de dois amantes. Então lhe revelei que essa minha visão independia da sua presença e que eu não me imagino sendo feliz ao lado de alguém, vivendo essa felicidade imposta pelo patriarcado e saindo sorridentes em fotos de família. É difícil me imaginar sendo feliz. Talvez seja porque minha concepção sobre a felicidade é distorcida, afinal, nunca consegui apreciar esse sentimento por muito tempo, pois algo de ruim sempre acontecia para estimular pesadelos. Não sei se conseguirei visualizar um futuro doce e bonito, mas sei que tenho muitas coisas para realizar, coisas que me trarão felicidade. Não sei se irei vivê-las ao seu lado, é muito peso para colocar sob sua figura, é criar expectativas que estariam longe de serem cumpridas. Acho que aprendo que amar é isso. Ama-se hoje, com os pés no chão, e quando for possível flutuar, ama-se o sonho. Haverá terra para ancorar nossos sonhos? Não faço ideia, só espero não me tornar uma velha repugnante antes disso.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Diálogos - narrações

Era um fim de tarde típico de primavera, o céu demorava mais para escurecer, dando ao dia a oportunidade de ser mais longo. Era possível ver o sol encolher seus feixes de luz ao horizonte, o que promovia uma visão esplendorosa em que uma paleta de tintas parecia brigar no céu. Enquanto isso, íamos caminhando, os três, cada um para seu respectivo lar, que não ficava a muitas quadras de distância uns dos outros. Eu admirava os cabelos dela, que eram de um cacheado tão preciso que beiravam à perfeição, assim como sua pele cor de chocolate, tão brilhante que lembrava um bombom.

***

Cheguei em casa e eles não estavam. Não me perguntei aonde teriam ido, mas se haveria janta aquela noite, pois me causava arrepios me imaginar comendo pão com mortadela novamente.

***

Passava das 22 horas e nada deles. Por que me largaram desse jeito? Pensei em ligar para a tia Mari, mas desisti ao lembrar do mau odor de sua casa e da quantidade de pelos de seus 13 gatos espelhados pelo tapete de seu pequeno apartamento. Contei para xxxxx e xxx no nosso grupo de mensagens. Eles apenas recomendaram: hora de atacar a cozinha. Levantei do sofá e caminhei vagarosamente até à garagem para pegar a escada. Com muita dificuldade consegui arrastá-la até a cozinha, imaginando quantas broncas tomaria de mamãe se ela descobrisse minha tramagem, mas recordei que minha fome era culpa dela e então o remorso passou. Então levei-a ao encontro do lugar proibido: o armário de guloseimas. Lacei mão sobre as batatinhas, biscoitos recheados e chocolates. Tudo o que eu só poderia comer se fosse obediente estava, finalmente, à disposição do meu desejo de devorar tudo.

***

Me perguntei inúmeras vezes que lugar era aquele, mas ao entrar na primeira sala pude avistar a imagem do paraíso: uma mesa repleta de comidas. Tudo parecia incrivelmente delicioso, havia uma torre de cupcakes com coberturas e confeitos de todas as formas e cores. Cachorro-quente, hamburgueres, bolo de chocolate, coxinhas, gelatina colorida, brigadeiros e pudins. Depois disso tinha a certeza de que estava no céu. "Obrigado Deus todo poderoso! Sabia que você reconheceria meus bons hábitos e obediência que meus pais nunca perceberam", mandei beijo para o teto e corri em direção à mesa.

***

Comemos tudo o que foi possível e o suficiente para não saber se arrotava à chocolate ou a cachorro quente, mas posso dizer que me sentia mais do que satisfeita e os dois pareciam sentir o mesmo. Nosso extase era tanto que começamos a rir sem parar e sem qualquer motivo. Olhava para a boca toda suja de suspiro de xxx e caia na gargalhada. Foi então que os bolinhos pareciam derreter, tentei segurá-los mas começaram a despedaçar pelas minhas mãos

Ele

Às vezes olho para ele e imagino o universo. O quão grande o enxergo. Não porque o coloque num pedestal, mas porque ele realmente é grande. Esplêndido em toda a graça de sua presença. Aquela voz aguda e de fala praticamente cantada, que as vezes fica fina quando ele está em seu lar ou quando tenta ser charmoso, mas acaba parecendo um bebê cheio de manha, como quem propositalmente age dessa maneira para ser pego no colo e aninhado. E de repente muda, fala grosso, briga, se defende como quem se sente ameaçado e por meio de uma dialética única. Depois me aperta, faz piada, dá risada.
Às vezes olho para ele e fico impressionada com toda a infinidade de sua beleza ao mesmo tempo que me incomoda saber que todas as pessoas têm acesso a essa visão. Mas isso me faz lembrar que algumas poucas visões só eu tenho. A visão do seu olhar apaixonado, me lembrando do por que me entreguei, com aqueles olhos brilhantes e um sorriso bobo na boca. A visão das suas nádegas redondinhas se mexendo quando ele levanta da cama para se lavar. A visão daquele olhar que me penetra, literalmente, em todo o meu corpo, me dominando com maestria, proporcionando momentos únicos de loucura e prazer. Momentos que eu desejo a maior parte do meu dia, que é poder ter uma nova oportunidade de me perder nos seus braços, no seu corpo, no seu gozo. A visão daqueles cabelos caindo sobre os meus seios quando ele sai de cima de mim, com aquela moleza pós-orgasmo e me mostrando o quanto ele é maravilhosamente lindo e inteiramente delicioso. Genuína e interiormente repleto de beleza.
Privilégios meus, sortudos olhos, carregado por um corpo amolecido e uma mente inquieta. Comunicação entorpecida, desejo imenso provocado pelo medo e pela paixão. Seguro coração, que pulsa e arde, dentro dessa carcaça pesada.

A viagem

Lembram-se daquela viagem? Em que, desprentesiosas não esperávamos tantas aventuras? Nunca o "eu" se fez tão presente em todos os diálogos da vida. Era como se fosse uma luta constante para manter esse ego vivo. Mas nos entendemos. Lembram-se daquela praia de água límpida e maré baixa? E de como ela acalmava a alma? As ondas batiam levemente trazendo a brisa serena e desforme para refrescar os nossos corpos. Lembram-se de quando pegamos carona com um desconhecido, um punk caiçara que para mim não era tão desconhecido assim? E no carro dele fumamos um enquanto ríamos, em coro, de tudo o que ele dizia? Lembram-se de todas as paisagens, praias, rios e cachoeiras que encontramos? Como tudo era belo e parecia infinito? Lembram-se de quando paramos numa festa dentro de um motoclube e parecíamos integrantes do clube da Luluzinha, com nossos vestidos floridos, pedindo cigarros para homens sujos, bebendo cachaça barata e fazendo pose de quem quer seduzir? Lembram-se de quando tomamos um lsd derretido em água e ficamos brisando com as nuvens do céu, imaginando a realização dos nossos sonhos? Lembram-se do moreno que veio falar comigo, perguntando onde iríamos passar o ano novo e de como a sunga dele era tão apertadinha que dava para enxergar mais do que queríamos? Lembram-se das conversas infinitas, das discussões sobre feminismo, sobre amores e desamores? Lembram-se do quanto estivemos felizes?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Retrospectiva 2015

Sorrisos que inundam a alma com a aquela brisa fresca e revigorante. Fazem encher o peito de expectativas positivas e resoluções razoáveis. Não vou declarar aprendizado, pois temo ser clichê e ingênua, e até mesmo arrogante. Prefiro revelar apenas que vivi e senti. E dessa vivência, em conjunto com uma explosão de sentimentos, algum aprendizado veio. Diferente do ano passado, em que me mantive em constante frenesi, este ano alcancei alguns objetivos. Sai de casa, enfrentei a solidão no qual também recorri e me acasalei. Senti fome, medo e tive vontade de abandonar tudo, mas aos poucos me reergui. Lutei, batalhei, corri, sofri, militei, briguei, gritei, mas gozei, ri e me encontrei de algumas maneiras, válidas ou não, sinceras ou não. E quando nada mais me aguardava e a vida parecia calma, topei com a paixão, que me bagunçou inteira. Chorei mais um pouco, pensei em fugir, mas permaneci e o calor pude sentir e me deixar invadir. Encontrei o amor, na maneira mais sublime, mas como um sopro intenso me convocou para permanecer. Com inúmeras dúvidas prossegui e assim as escolhas me trouxeram mais certezas.
Quanta coisa! Não sei o que espero de 2016, só gostaria que fosse mais doce que os anos anteriores. Gostaria que objetivos se tornassem realidade e que a calmaria fosse rotina. Mais viagens, mais sorrisos, mais amor.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Reencontro/Diálogos

Liniker - Zero
"Peguei até o que era mais normal de nós
E coube tudo na malinha de mão do meu coração"

Sinuosa linha que separa o tempo dos acontecimentos. Concretiza feitos, cruza corpos e cria histórias. Intensa a dança que move os passos que procuram um compasso. E os pés vão caminhando em plena sintonia, afagados por açucarados sorrisos. Abraços demorados em conjunto com olhares que oferecem um convite sutil: Fica, ele demonstra. Sorri com os olhos, brilhantes e negros.
Hipnotizados, hipnotizantes. Os cabelos voam quando bate o vento, o corpo esfria, mas encontra no outro. Uma razão para estabelecer a chama que esquenta também o coração. Eu quero, ele diz. E, aos poucos, vai assumindo um lugar sui generis. E o novo vira doce que, denso, derrete e enche a boca de antídoto. Catastrófica, a mente se retorce e entra em frenesi: paixão, receio, loucura. Mas o amor não pode ser veneno. Medo, ele diz. "Quem tem alma não tem calma", parafraseio. Medo dá coragem, ele insiste. Mais coragem, que medo, respondo. Magnetiza energia que atrai os corpos que, a cada novo encontro, provoca um pandemônio nos neurotransmissores. Parece que nos conhecemos há tempos, ele recita, clichê. De vidas passadas, pensei, hesitei, não verbalizei. Que bagunça você fez em mim, conclui. 

Pequena, ele me chama. Grande, eu o vejo
Confia, ele pede. Calma, eu bocejo
Incertezas, ele revela. Concordância, eu apresento
Desejos, ele almeja. Sonhos, eu os quero
Eu te amo, ele despeja. Amor, eu entrego





segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Adeus, velho amigo

Ter cortado nossos laços à força doeu demais. Pois durante muito tempo você foi meu único companheiro. Quando chorei, quando sorri, quando enfrentei momentos difíceis, quando vivenciei a dor e a ansiedade bateu forte, quando estive feliz e me senti repleta, você estava lá. Você estava em todos os momentos mais importantes, inclusive nos mais mundanos. É por isso que me despedir de você tem sido uma tortura. Saber que nunca mais sentirei seu gosto, que nunca mais poderei me sucumbir ao prazer que você proporciona, dói demais. Queria parar de flertar contigo, de te imaginar ainda comigo, de te sugar e sentir meu peito encher. De desejar mais um momento com você e, assim, finalmente te deixar partir. Mas sei que devo me afastar e tem que ser para sempre, que tenho que ser forte e lutar para te esquecer, mesmo que tudo o que eu mais queria neste momento é te sentir nos meus lábios. Sei que nosso relacionamento foi intenso e tão duradouro que parecia eterno, que já me salvou de algumas enrascadas, que já me livrou de algumas trapaças, que poderíamos passar o resto da minha vida juntos, mas sabemos que você nunca me fez bem e sua presença sempre foi tóxica. Se fosse saudável, se chamaria amor e não vício. Portanto, aqui sepulto minha despedida, te enterro com pesar e cubro-te com alegria, que é em memória aos nossos bons momentos. Aqui te digo para ir em paz e desejo que outras pessoas também te esqueçam, que você nunca mais faça mal a alguém, mas sabemos o quanto poder você tem sobre algumas pessoas. Não mais comigo, porque sou forte e resistirei, sou tão grande que você não continuará a me amedrontar e a cada dia longe de você vou me fortalecendo até chegar o momento que você nunca mais me incomodará. Adeus, velho companheiro. Adeus.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Temerosa alma

Aqui eu me rendo. Me rendo porque assumo meus pecados e, perante um júri sem rosto, declamo a minha confissão: eu não sei viver de acordo com o que essa sociedade prega. Eu não consigo me encaixar, porque esta caixa é muito pequena e não há espaço para comportar as minhas asas e, consequentemente, a minha necessidade de voar. Eu preciso ir sempre além, porque é por meio desse ímpeto que eu me sinto viva. É me livrando dessas algemas que eu compreendo um pouco de mim mesma e o quanto meu voo pode ser alto. E eu vou partir todas as vezes em que não puder ser mais feliz e não vou perder tempo. Já dizia Frida que onde não puderes amar, não te demores. E isso também é resultado da minha fúria, da minha fome de viver. Pois também já dizia Fernando Pessoa que quem tem alma não tem calma e a minha pressa é sagaz demais para também me contentar com o fugaz. Eu preciso atingir as profundezas do mar sem ter medo de me afogar, pois eu sei que conseguirei levantar. Sinto que minhas palavras neste momento são necessárias para manterem minhas memórias intactas. Não é somente o desejo de nostalgia, é a vontade de que esse momento nunca se acabe. Minha vida tem mais cor, tem mais sabor e inclusive mais sentido, por que hei de querer que essa densa sensação se torne gasosa e evapore? Por que desejaria outros dias em que a sensação de vazio era eminente? Sou completa, sou feliz e sei das minhas capacidades, mas agora que me tornei maior, eu não vou querer outra realidade. 
Temo, porque sonho alto demais e a queda é profunda. Temo, porque minha coragem se mostrou minha pior inimiga e me distancia da realidade que mantém meus pés firmes no chão. Temo, porque não queria ter que pensar muito, queria que minha mente continuasse fresca e me levasse para onde tudo é belo e calmo. Temo, porque queria estar segura, queria um aperto firme de mãos quentes para poder me carregar. E temo mais ainda por manter este desejo. 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Queria te agradecer

Pelos bons momentos. Pelos sorrisos sinceros. Pelos abraços que aquecem a alma. Pela permanência. Por ter me buscado. Pela insistência. Por ter voltado. E muito além disso: por querer ficar.
Também agradeço por ter demonstrado, sem palavras, mas com gestos francos, de que é sim possível compartilhamos nossa felicidade com leveza. Obrigada também por me fazer lembrar coisas que esqueci no meio do caminho, coisas essenciais como o prazer de ter e para isso, eu não preciso que você se entregue por inteiro. Eu só preciso que você queira ficar e voltar, quantas vezes você desejar e eu quiser te receber. Obrigada por me fazer recordar de coisas tão simples, mas tão importantes.
Queria te agradecer por sempre me incentivar e, de certa forma, esperar o melhor de mim. Por ter me escutado e me apoiado todas as vezes que enlouqueci e você, mesmo sem ter qualquer responsabilidade, fez de tudo para me compreender e, com muito esforço, me ofereceu sua gentileza em forma de palavras.
Queria agradecer também por tornar meus dias mais doces, por ter me mostrado, sem saber, que eu não preciso de envolvimentos que me deixam pesada e por ter sido sempre tão afável e solícito.
Nada é eterno, muito menos a vida, então vamos brindar enquanto ainda pudermos!  Queria te agradecer e aqui estou. Obrigada.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Eu sou o caos

São tantos questionamentos que eu nem sei por onde começar este texto. Só sei que preciso fazê-lo para aliviar em mim este peso. Desde que assisti a um vídeo de um monge entendi que não deveria criar uma imagem de mim mesma, porque isso nada mais é do que dar forças ao ego e eu tento, ao máximo que posso, me desapegar dele. No entanto não consigo me desvencilhar da necessidade de me sentir leve, mas sei que não sou e é assim que eu me perco na minha própria ilusão. Sou densa e preocupada, assim como se descreveu um ser que já teve importância na minha vida. E no momento, tudo o que mais queria era ascender à insustentável leveza do meu ser. Cheguei à exaustão, meu corpo dói, minha mente pifou e assim me dei por vencida. Uma inesgotável necessidade de chorar me invadiu e agora, me sinto vítima de meus próprios pensamentos. Completamente vitimizada. Queria entender porque meu timing está sempre tão desconexo com os homens que entram na minha vida. Por que tenho sido constantemente descartada, por que me dizem que sou admirável, uma pessoa incrível, mas nunca sou a escolhida. Por que desistem de mim, por que me enganam, por que se perdem tanto, por que se confudem, por que me deixaram tão perdida? Eu cansei de tudo, cansei de procurar parcerias em quem não sabe dividir, cansei de relações confusas, cansei de se opção, cansei de ser cuidadosa, cansei de esperar, cansei de ser compreensiva, cansei de ser trocada, cansei de me sentir cansada, cansei de todos. Cansei de mim mesma.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Por que não quero que você fique

Naquela última noite, eu tentei cortar nossos vínculos físicos, mas não consegui porque sou fraca. Meu racional é presente, mas por vezes delirante devido a diversos fatores externos, são meus impulsos que traem o meu consciente. Então eu sugeri te pedir para que voltasse e você voltou, sem delongas, e aquele foi o ápice de qualquer constatação romântica na nossa confusa e gélida relação. Eu estava aos prantos e você deu a ideia de voltar como o salvador da minha solidão, e então tudo voltou a ser efêmero como nos outros dias em que estivemos juntos. Acredito que nesse meio tempo eu tenha me tornado um mártir, porque intensifiquei coisas que para você permaneciam perfeitamente intocáveis, mas eu quis ir além e você se mostrou imóvel e sólido. Sob uma resistência totalmente impenetrável.
Eu demorei para entender que existe um abismo que nos separa, mas quando finalmente tudo veio à tona, eu me vi incapaz de prosseguir com essa desventura. Seguir com isso seria muito além de uma loucura, seria um suicídio, por que, quem em sã consciência, prosseguiria num caminho ilusório que pode não levar a lugar algum? Quem iria querer estar com alguém que não tem certeza sobre você, que se diz confuso e que, durante semanas, não demonstrou qualquer apreço pela sua companhia? Não fez questão da sua presença e nem se fez presente quando você lhe pediu? Quem iria silenciar um pouco dos seus desejos para respeitar o tempo do outro, um tempo que não tem data e nem previsão de manifestação? Quem iria querer continuar numa relação sem futuro, nem eixo, nem ponto de partida e, até mesmo, sem emoção?
Eu me enganei por um momento sobre você, achava que o que tínhamos era leve, mas não, era superficial. Eu não sabia nada da sua vida, mas por alguma razão, sabia muito sobre o seu trabalho e sua cansativa rotina. Eu não sabia nada sobre as suas intimidades, suas dores, as batalhas que você enfrenta no momento - inclusive as internas -, mas sabia sobre a maneira que seu chefe te perturba e o quanto você se cansa com isso.
Você provavelmente não sabe muito de mim, porque não te interessa. Eu sempre achava que estaria invadindo a sua privacidade se colocasse alguma pergunta errada na mesa, e, pelo jeito, você parece sentir o mesmo com relação a mim. Ou você apenas não me pergunta porque não tem vontade de saber e isso já me fez pensar que você me vê com um ventrículo para o seu prazer. Uma fonte infinita de prazer, a opção que resta quando o desejo do escapismo se faz presente. E me fazendo sentir tudo isso, você declara gostar de mim, diz que eu mexi com você. Ouvir isso a primeira vez é lindo, é tudo o que você quer escutar de alguém que mantém um rolo de mais de dois meses sem qualquer perspectiva de futuro. Porque de repente o jogo vira e se torna mais afável do que se mostrava anteriormente. Mas o que são palavras comparadas a atitudes? O que são a falta de chão e de planos em meio a uma imensa confusão que você me inseriu?
Sei que existe uma cláusula dos bons relacionamentos que se chama liberdade e que você, mais do que ninguém, precisa de um tempo maior. Você que teve uma vida ao lado de alguém e saiu recentemente de tudo isso. Você que foi leviano em se deixar envolver comigo e me envolver também. Você que diz querer ficar comigo sem qualquer hesitação, mas é incapaz de planejar qualquer evento - de menor importância possível - comigo e por nós. Você que não consegue me ver na sua vida, que não consegue entender o que tem a me oferecer e o que quer para si mesmo. Você que me faz sentir a pessoa mais bipolar do mundo, porque faz surtir em mim sentimentos de: quero estar com você; não posso pensar só em mim; estou cobrando demais, é muita pressão, ele não vai aguentar; e com o que eu quero da minha vida.
Eu não posso falar por você, então, eu falo por mim. O que eu quero da minha vida além de todas as outras questões importantes como carreira, viagens, êxitos pessoais: eu quero alguém que não tenha dúvidas de mim. Que diga que me quer e portanto vai estar comigo, vai me levar pra viver o que tivermos pra viver e vai se deixar levar para o meu universo particular também. Alguém que respeite o que diz, que quando me disser que me quer, essas palavras terão todo o peso da consciência e não somente representarão um ato de desespero para não me deixar escapar do seu alcance. Alguém que não me queira somente durante os dias espaçados da semana. Alguém que esteja comigo aos finais de semana por pura vontade de estar e não porque não tinha algo melhor para fazer, ou porque seus amigos desistiram dos seus planos. Alguém que vai me fazer ter certeza também, que vai embalar a minha mente e vai ser a minha melhor companhia, não apenas um entretenimento sem qualquer apelo emocional. Alguém que esteja de braços abertos para me receber e que venha me tirar um sorriso quando os dias estiverem cinzas, e que vai me deixar fazer o mesmo. Que vai nos deixar ser algo bom na vida do outro, e não uma grande confusão.
Te sinto preso no seu passado e, mais do que isso, te sinto perdido porque a vida tá correndo e você não sabe onde está nessa parada. Quem é você na noite? Um ser sedento por diversão efêmera, que sabe das ilusões da vida noturna ou uma alma solitária que não sabe quais os próximos passos deve dar para encontrar a luz do dia?
O que você quer para você? O que você quer de mim? O que você tem a me oferecer?
Queria muito poder te dizer: esquece toda a merda que te aconteceu, porque você não estará pisando no seu passado, você só estará se libertando de algo que te aprisiona para encarar um recomeço. Te convidar para mergulhar fundo no meu mar e que você mesmo perceba que a minha água não é tão turva quanto parece. Te ajudar a conduzir este novo caminho e te mostrar que a vida pode ser mais que isso. Te provar que você está seguro para se soltar, para confiar e ser você mesmo, ou para que você possa se reinventar, se redescobrir, porque eu estarei ao seu lado para te segurar quando você cair. Mas eu acredito na Frida e ela já disse: Onde não puderes amar, não te demores. E eu tenho certeza de que você não está pronto para o que eu tenho a oferecer, então, não posso me demorar. O amor não tem pressa, mas tem fome.

domingo, 26 de julho de 2015

Rotina que me emburrece

O título é ofensivo, mas o motivo dele é muito mais literal do que propositalmente passivo-agressivo. Acho que alcancei um limite em que parece impossível continuar a manter a minha rotina. Já fiz de tudo para melhorá-la de maneira geral: comecei a me exercitar mais da forma que me agrada, me alimento mais saudavelmente, mantenho um convívio social extremamente enriquecedor fora do trabalho, cuido de minhas responsabilidades, minhas obrigações e da minha casa, mantenho uma interação grande com a minha família, e tenho lido mais livros do que assistido séries. No entanto, continuo recorrendo à diversão como maneira de escape, mais do que simplesmente diversão que tranquiliza, tenho gastado horrores com bebida, entrada de balada e táxi, não deveria ser assim se tudo - ou parte do todo - realmente fosse mais ameno. Se a minha rotina fosse mais tranquila, os gastos também seriam. Talvez eu precise de um escape maior, fazer uma viagem dessas que nos renovam a alma, talvez eu devesse largar tudo e, sei lá, o que eu poderia fazer? Como iria sobreviver? Queria trabalhar com social em vez de capital. Queria ter orgulho ao ver o resultado do meu suor, que deveria ser diferente da sensação de ter em mãos um salário que não sobra. Queria sentir uma paz de espírito cada vez que acordasse todas as manhãs e cada vez que fosse para casa. Queria colegas que contribuíssem para o desenvolvimento intelectual de todos, como uma troca de sinergia e conhecimento. Queria fazer a minha parte e deixar um legado. Queria que meu trabalho fosse importante, para mim.
Vênus e mercúrio na casa 10 são os posicionamentos que me fazem preocupar tanto com a carreira, isso não quer dizer que eu sou responsável ou extremamente dedicada. Isso só quer dizer que existe uma sombra que sempre me perseguirá, e tempestades irá criar, para me lembrar de que eu não deveria desperdiçar o meu talento, tempo e abnegação para gerar valor e lucro para empresas. Eu não quero trabalhar para servir de massa de manobra do capitalismo, da indústria farmacêutica e/ou da doença. Eu queria, muito além de informar, levar as minhas palavras para melhorar o dia de outrem, para prover ensinamentos, resolver questões sócio-políticas, ou qualquer outro fator que me fizesse sentir maior. Eu não sei exatamente quais passos devo seguir, é como se houvesse uma neblina que embaçasse minha visão, porque eu não sei o que devo fazer. Existe um nó, e eu preciso aprender a desatá-lo. Existe uma desordem em ebulição, e eu preciso entender de que maneira posso amenizá-la, confrontá-la ou eliminá-la. Existe um sentimento de frustração, uma dor no coração de, todos os dias, fazer muito pouco pelo que acredito ser positivo para mim e para o todo.
Eu cansei de toda essa lorota corporativa, cansei dessa falsa simetria que as pessoas apenas fingem, diariamente, como fantoches de um sistema que valoriza mais a conta bancária do que o teor de conhecimento conquistado, que o prazer no trabalho e que a necessidade de se fazer algo realmente construtivo que não seja esse padrão hipócrita e insensato que a sociedade prega sobre a maneira que devemos conduzir nossas vidas. Eu devo conduzir a minha vida, não o dinheiro, não os padrões, os patrões, o estresse diário, e o escapismo mais que necessário. Eu quero ser livre.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O que compreende a tua alma?

Acho que a solidão tem me feito bem, porque nela pude ser invadida por pensamentos que se transformaram em decisões. Preocupações que há tempos permeiam a minha mente, mas que nunca tive forças para torná-las atitudes. Pois bem, essa sou tentando ser uma pessoa melhor de fato, isso porque antes sempre me ocorreu, mas eu não havia percebido que só desejava me tornar alguém melhor para mim mesma. Isso acontece porque existem coisas dentro de nós que estão tão enraizadas que esquecemos realmente de abrir nossos caminhos e colocarmos algo positivo em prática. O que eu estou fazendo de bom para o mundo?
Estamos tão presos no conceito "crescer na vida e ser feliz" e isso está tão atrelado à necessidade de estudar, trabalhar e construir uma vida com independência financeira que esquecemos de muitas coisas.
O primeiro pensamento surgiu quando conversava sobre viagem com uma amiga de Niterói (RJ), que me disse algo que talvez ficará muito tempo na minha cabeça: o ser humano esquece que também é bicho, que precisa de natureza e que só se sente melhor levando uma vida longe das metrópoles, das tecnologias, dos vícios e dos alimentos industrializados. Pois é. Tal constatação surtiu em mim o desejo de utilizar meus cinco dias de férias para conhecer sua cidade e passar longe da ideia de visitar Buenos Aires, afinal, por que iria gastar mais dinheiro indo conhecer outra cultura se mal conheço a de uma cidade vizinha? "Se não conheço nem 50% de SP inteira?" Mas mais além disso, surgiu a necessidade de voltar a testar o vegetarianismo na minha rotina. Eu já fiquei quatro meses sendo ovolactovegetariana, fiquei quase um ano sem comer carne vermelha, e a partir de então, sempre tento substituir a soja pela carne. Por que não tentar de vez agora que moro sozinha e posso cozinhar o que eu tiver que comer? Bem, dadas as minhas condições atuais, ainda preciso almoçar na agência e aqui temos carne todos os dias, então, decidi que vou continuar comendo aqui e trazendo almoço de casa sempre que possível, e vou evitar os alimentos de origem animal o máximo que puder (e resistir). Isso também tem a ver com uma preocupação que há tempos criei quanto ao consumo desse tipo de alimento, porque sei que meu corpo funciona melhor sem proteína e gordura carnívora e porque eu quero tentar não contribuir para a matança animal e, consequentemente, à degradação do meio ambiente.
Outra preocupação é cuidar mais da saúde e isso quer dizer que eu vou tentar me exercitar mais de três vezes por semana (que é o máximo que já faço), mas como já percebi que em casa minha procrastinação é grande, pretendo começar a natação mês que vem e também vou entrar num grupo de ciclismo e poder pedalar à noite pela cidade, já que temo fazê-lo sozinha.
Outro questionamento que me invadiu foi quando me vi discutindo com a minha irmã sobre a legalização do casamento LGBT nos Estados Unidos - que ocorreu semana passada e levou uma legião de pessoas no Facebook a trocarem suas fotos de perfil como maneira de comemorar e apoiar a conquista. Não quero discutir esta pauta, mas quero provocar um pensamento: nossa sociedade, especialmente a minha geração, só é ativista para o outro ver e só faz as coisas sob a possibilidade de torná-las conteúdos compartilháveis. É fácil estender uma bandeira para ganhar likes, ter argumentos válidos para discorrer sobre qualquer tema e defender suas convicções, mas o que estamos fazendo para realmente gerar progresso? Quando minha irmã reclamou sobre "existir mais coisas para se preocupar do que casamento de gay" e eu rebati perguntando o que ela estava fazendo para mudar essas coisas, me vi cometendo o mesmo erro que praticamente quase todas as pessoas nas redes sociais cometem: o engano de achar que estão contribuindo para algo realmente concreto com suas discussões, principalmente porque estas geralmente se tornam brigas de ego e ganha aquele que souber argumentar melhor.
Depois desse episódio, me vi novamente discutindo com minha irmã, mas desta vez, dando-lhe conselhos, quando ela me procurou para dizer que estava se sentindo depressiva e eu lhe recomendei algumas mudanças positivas em sua vida. Ela me disse que não sentia vontade de nada e que pensava em voltar para o Japão, mas que mesmo assim queria construir sua vida aqui - porque lá tinha liberdade e estabilidade financeira, mas aqui ela tem a nossa família. Logo lhe confrontei, disse que isso seria fugir novamente e que se ela sente necessidade de estabelecer uma vida aqui, é porque é isso que ela precisa fazer, afinal, ficar um tempo lá para ter que voltar novamente e ter nada construído só iria lhe render mais frustrações, não é mesmo? É postergar insatisfação, quando o contrário poderia ser realizado. Falei que a falta de vontade pode ser resolvida aos poucos, com paciência e perseverança, ao agregar formas de adquirir mais qualidade de vida. No caso dela, seria preciso se forçar a fazer tais coisas. Perguntei o ela gosta de fazer no tempo livre, ela disse que era ver séries. Fui mais além e perguntei o que ela acha que poderia fazer de divertido ou proveitoso que poderia fazê-la se sentir mais completa. "O que acalenta a sua alma?" Ela não soube responder e disse que gosta de ver séries. Eu deixei essa questão com ela, para fazê-la pensar ou para manter em sua mente e, quem sabe, essa conclusão chegasse em alguns dias. Ou pelo menos lhe cause uma preocupação que lhe faça procurar por essa resposta e assim poder colocar em prática. Da conversa surgiram outras pautas, depois lhe convidei para dormir em casa e preparei um jantar vegano, em troca ela me comprou os ingredientes e deixou algumas maçãs em casa. No dia seguinte, ela me mandou um vídeo fazendo carinho em seu gato, mostrando que se sentia um pouco melhor depois do nosso encontro.
Depois disso, eu percebi que eu também não tinha concretizado o pensamento sobre o quen compreende a minha alma e percebi o quanto tenho ido em contra partida às minhas convicções. Afinal, sou feminista, mas não ativista - não mais, porque não vejo compactuando com muitos conceitos empregados por movimentos feministas (como ir à marcha das vadias, por exemplo), acredito que é possível desconstruirmos o machismo no dia-a-dia, por meio do diálogo e com as pessoas que estão abertas à reflexão de seus atos -, e durante anos me vi totalmente refém de relacionamentos amorosos com homens, como se dependesse deles. Não, não decidi me tornar homossexual ou abdicar de encontros sexuais, eu sou hétero e sexual, não posso tentar dominar o meu primitivismo, afinal, quem sou eu para me auto-reprimir? Mas notei que, os romances não precisam ser o centro da minha vida, até porque isso nunca foi o suficiente para me fazer completa. Primeiro porque - custei, mas - aprendi que não se deve buscar uma cura para a solidão em uma pessoa, não se deve esperar ser completada e nem se deve colocar responsabilidades sobre o outro. As pessoas são livres, elas vêm e voltam quando quiserem, e amor não pode ser a razão para a obrigação de estar sempre presente. Além disso, sei que não devo colocar minha esperança de ser feliz em um homem. Tenho certeza de que não é possível, nunca será suficiente, e ninguém tem a obrigação disso: de me fazer feliz. Até comentei com a minha irmã, quando ela me disse que sempre foi infeliz, que não acredito que a felicidade seja um sentimento eterno, unilateral e, ainda, essa coisa tão superestimada e praticamente inalcançável que tanto desejamos e temos obrigação de conquistá-la. Eu acredito que a felicidade é algo sublime e funciona como uma união de sensações, sentimentos e situações felizes, e que, se vivenciamos isso com frequência, conseguimos ser naturalmente mais felizes, assim como o contrário. E se estamos felizes, a vida fica mais leve e nos tornamos mais fortes para enfrentarmos os momentos difíceis e de extrema infelicidade. Ninguém é feliz o tempo todo, assim como deve ser o oposto disso.
Pois bem, me questionei sobre as minhas principais preocupações, excluindo as minhas necessidades e responsabilidades pessoais - que são trabalhar, pagar o aluguel, aumentar a renda, estudar, escrever etc -, que são: cuidados com o meio ambiente, consumo de recursos de origem animal (que muito além do alimento estão os testes de laboratório, o uso para desenvolver produtos de beleza, limpeza e vestuário somente para abastecer a indústria e, consequentemente, engrandecer o capitalismo) e, principalmente, educação. E com essa preocupação, sempre existiu o desejo de ser professora da rede estadual, algo que pretendo colocar em prática um dia. Mas e o que eu poderia fazer neste momento? Então procurei por ongs e orfanatos na região e decidi me candidatar a um trabalho voluntário - e penso até mesmo em apadrinhar uma criança. Acabei chegando em uma casa que atende no mesmo bairro que o meu e marquei uma visita, além disso, estou tentando coletar doações para levar no local. O objetivo disso não é só me fazer uma pessoa melhor, mas ajudar com o pouco que posso às pessoas que precisam, realmente é algo que compreende a minha alma. Não desejo somente fazer doações, quero poder ter contato com uma ou mais crianças e adolescentes, tentar conversar com elas, tentar contribuir com um pouco do meu conhecimento e, se possível, gerar sorrisos.
Essa sou eu tentando ser alguém melhor, essa sou eu, fazendo o melhor para mim mesma, e essa sou eu realmente encontrando uma proposta de vida que compreenda a minha alma. Chega de ficar na superfície.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Paixão que desestabiliza

Voltei a escrever o livro e reli alguns posts desse blog, e assim percebi o quanto me vi confusa com o término com ele. Praticamente tudo o que escrevi aqui até antes do meu aniversário demonstravam o quanto eu me vi perdida e contraditória. Se apaixonar causa um caos imenso, não? Eu aproveito para dizer que tenho agido diferente nesse meio tempo, tento não criar tantas certezas porque eu sei que não serei capaz de transformá-las em estruturas. Não sei se porque ainda sou imatura para realmente criar metas alcançáveis ou se porque sou leviana demais para manter algo. Então, vou vivendo e, vivendo, vou aprendendo, seja algo importante que eu possa aplicar ao meu dia a dia, ou algo que simplesmente me provoque alguma reflexão profunda e descobertas. Sei que ainda não o esqueci, claro, não é possível esquecer alguém assim, não quando você realmente amou, o término foi horrível e logo quando você estava completamente apaixonada. Disse muitas vezes para mim mesma que não era amor, mas menti em todas as vezes. Apego não me proporcionaria as sensação que senti e nem os pensamentos que me confortaram de tal maneira que me vi capaz de imaginar toda uma vida ao lado de alguém. Ou talvez tudo isso seja um grande devaneio de quem não tem os pés no chão e eu confesso: de fato não tenho.
Tenho conhecido pessoas, uma em específica me agrada e me faz bem à alma, outras têm gerado interesse, mas não o suficiente para ser revertido em envolvimento, não desse modo. Talvez eu não esteja mais tão aberta assim, talvez eu esteja mais preocupada em encontrar maneiras plausíveis de desfazer meus erros, e tenho feito. Fui atrás de gente que dei mancada e me redimi. Não sei se fora o suficiente, especialmente para um, mas eu tentei e fui bem recebida. Acho que é um momento de fazer diferente, tentando controlar os impulsos e encontrar alguma fonte de paz, não em alguém, mas em mim mesma.

sábado, 20 de junho de 2015

25 anos, novos rumos


É muito cedo para assumir alguma coisa, e se eu fizer isso estarei sendo leviana, que é algo que eu não quero mais ser. Acho que talvez seja o momento de me redimir comigo mesma e fazer as coisas da melhor forma, da maneira que não me vi capaz de fazer no passado. Talvez de consertar os erros do último relacionamento, talvez para me tornar alguém melhor, mas de certo modo, tenho receio de entrar em um território que não conheço e acabar mais confusa do que já estava. Mas eu me sinto outra, queria dizer que me sinto mais sábia, mas temo ser leviana nesse ponto também, então prefiro dizer que sim, sou outra, com uma nova visão para alguns assuntos, de coração aberto para novas experiências, mas ainda procurando uma consciência que me promova segurança. Não quero pensar muito, porque o pensamento esgota e provoca desgaste, então prefiro viver e quero viver com uma tranquilidade que nunca provei, talvez com a necessidade de ser mais plena desta vez. Em resumo, tenho fugido dos exageros, inclusive dos de teor mental. Tanto que comecei a ensaiar um pensamento que se traduziria em uma reviravolta na minha vida, mas preferi voltar atrás e assumir que não, foi apenas um começo para algo novo e bom. E isso é ótimo e eu me sinto completamente satisfeita por ter me aberto a novos planos, a novas vivências e, quem sabe, um novo amor. Decidi parar de negar meus desejos mais profundos e completamente enraizados e aceitar o que a vida proporciona de uma maneira mais receptiva, sem carregar o peso dos dias passados e sem múltiplas teorias sobre como cada coisa deve ser e acontecer. Gostaria também que a carência da solidão não confundisse meus sentimentos, queria estar consciente o tempo inteiro, mas isso eu não consigo controlar completamente, portanto, sinto que tenho que levar em consideração outras metas, inclusive aquelas que eu dependo para sobreviver. Vou me deixando viver e eu quero viver. E agora aceito o fato de que sim, eu quero um amor, não as paixões fugazes, não as diretrizes que abordam desastres, não o aperto que dói no peito e deixa um vazio imenso, eu quero amor que me faça transbordar, um amor que me torne melhor e não que me complete, mas que faça eu me sentir mais plena - talvez eu necessite disso, talvez eu realmente seja uma pessoa venusiana, que só se sente mais completa amando - um amor que só agora eu estou disposta a receber e compartilhar.

Eu sou amor, da cabeça aos pés, eu sou.