terça-feira, 23 de outubro de 2018

Su gracia

En toda la inmensidad de tu ser, siento que ya no me arriesgo, temiendo ser audaz y teniendo cuidado de no parecer acomodada. El amor me parece cómodo, confortable, como un abrazo afable y acalentador o como un beso caliente y que te transporta al más sublime universo. La idealización no es algo que me atrae más, digo lo que siento y no tiene nada más sincero que eso. Quería darte el mundo, yo diría, tiempos atrás, pero me has enseñado, de alguna manera, que el mundo pertenece a todos y dividirlo igualitariamente es más justo y plausible. Quería que el mundo viera el poder de tu sonrisa y que ese gesto fuese capaz de tranquilizar a esa sociedad, se burlaba y desgraciada, pero yo confieso que prefiero tener dosis homeopáticas de esa sensación sólo para mí, porque soy egoísta en toda la ignorancia y insegurancia de mi ser. Nací mujer y así moriré, me convertí mujer y así no me conformé, con el ser social al cual fui calificada y usurpada mi paz fue atravesada. Me sigo perdiendo y encontrándome en tus brazos, entendiéndome y cambiando en nuestras conversaciones y ambicionando un futuro más honesto para nosotros, para todos. Su amor me hace mejor. Gracias.


Imaculável ego

Que traiçoeira seria essa vida que coloca à prova a nossa existência com base apenas na realização através da imagem do outro. Existem tantas formas de viver e se relacionar, mas a nossa sociedade está adoecida com tanta distorção e confusão, que é capaz somente de frisar a sobrevivência por meio da inveja, da competição e da manutenção e enriquecimento da vaidade. E haja combustível pra alimentar tanta vaidade. Combustível esse que depende da alienação, abnegação e submissão de outrem. Onde o outro continua sendo visto como mercadoria, mesmo para aqueles que se dizem contra esse sistema. Qual foi o ponto perdido para que o egocentrismo dominasse as nossas relações? Onde nos encontramos quando achamos que o mundo nos deve o que merecemos? Quando estaremos completamente satisfeitos ou a satisfação é um conceito irreal? Não dá pra ser coletivo quando não sabemos dividir. Não dá pra ser justo quando não temos uma visão realista de nós mesmos. Mas até que ponto a mente perverte ou quer se deixar enganar? A quem realmente enganamos?

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A valsa do pau mole

O pau mole é aquele que dança num compasso ponderado.
Ele é descoordenado e não segue o ritmo da música.
Ele mede algumas involuntariedades do seu corpo,
Enquanto tenta controlá-las a qualquer custo.
Custo até à sua liberdade de movimentos.
Mas ele não se importa com elas ou com eles.
Ele só pensa em fazer seu pau enrijecer. 
Duro, capaz de quebrar um tijolo e fazer chover tesouro.
Na inocente ilusão de sua inabalável masculinidade. 
Para penetrar fundo e possuir a vaidade.
Dar algumas bombadas, breves e drásticas.
Como um maestro regendo a perfeita sinfonia.
Não importando a plateia, pois o palco é seu por excelência.
Ainda que esperando aplausos e pedidos de bis.
Ele goza, ri e geme - um gemido másculo.
Nos segundos mais importantes de sua existência.

Ele acorda e percebe, com decepção.
Para baixo, assim como está seu volume.
Caído, fraco e esquecido na pista de dança.

Aqui jaz o êxito de toda sua virilidade.
Pobre homem.



Escrito originalmente em outubro de 2015.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Palavras que sufocam e trazem o desafeto

...

Mulher odiável

Apaixonante ela transcende entre as praças e esquinas, com seu perfume sabor selvagem: cheiro de flor madura e fumaça de cigarro. E como uma ninja ela desaparece, sorrateira, travessa. Eles pensam que ela quer brincar, mas o que ela quer é se firmar, não mais se autoafirmar, dançar por entre as arestas da vida, que castiga. Sentir o mais sublime amor, banalizado pelos conceitos que o permeiam. Não se vive o amor conceitual, se faz o amor, se constrói o amor. Ela vai, samba, ri, mas chora, embaixo do edredom, vazio e frio. Na calada da noite, ela não se encontra mais, porque hoje ela é do dia. E nas ideologias da vida, ela se transforma em bruxa ou em fada, que enfeitiça e desgraça.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Cedo demais

Cedo demais para desavenças.
Cedo demais para sentir abandono.
Cedo demais para se sentir perdida.
Cedo demais para querer sair correndo.
Cedo demais para o sofrimento claustrofóbico.
Cedo demais para o silêncio ficar constrangedor.
Cedo demais para as incoerências e discrepâncias.
Cedo demais para a dor ser maior que o amor.
Cedo demais para se acabar, como um desabrochar de uma flor.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Abandono - compreensão

Declaro que aqui abandono meus maiores e mais recentes medos. Talvez não seja fácil dessa maneira, mas o pensamento tem um poder absurdo, então acreditar é o primeiro passo de uma revolução, seja individual ou não. Abandono meu medo de sofrer e tento deixar no passado o pessimismo que carrego travestido de defesa. Abandono também meu desgaste emocional para poder encarar a vida sob uma nova ótica, mais otimista e mais confortável. Abandono meus quereres que não dependem de mim e aceito o outro com mais compreensão e menos necessidades. Abandono parte dos meus defeitos, na tentativa de transformá-la em qualidade. Abandono meus anseios que me prendem mais do que me fazem me mover. Abandono a triste prática de desconfiança, ninguém vive bem com medo de ser enganado. Abandono meu medo do abandono e sigo buscando minha própria emancipação, enquanto mulher, individual e coletivamente.

Abandono

Já foi dito que o homem (sic) é um animal social por natureza. Enquanto integrante da sociedade, o ser social depende de suas relações sociais inclusive para sobreviver. Eu não levo em consideração pseudo-eremitas que não pagam aluguel porque vivem com os pais, trancafiados em suas bolhas impenetráveis. Já conheci alguns e a experiência foi mais que péssima, pois minha presença, ou de qualquer outro, só era requisitada para utilidade. Odeio pessoas puramente utilitaristas, ainda que, sabemos que a maioria das relações ainda assim sobrevivem dessa maneira, somos seres sociais, precisamos uns dos outros. Eu sou da multidão, não daquelas dos shows lotados (depende da intenção, claro), mas que leva em consideração a vida em sociedade na sua forma mais pragmática: no desejo e no ensejo do compartilhamento. Na ajuda, no companheirismo, no ideal de igualdade. A gente precisa de individualidade, mas precisa saber estar aberto suficiente para não precisar e pedir mais do que está disposto a doar. É uma via de mão dupla. Sempre digo que odeio pessoas egoístas, perdidas na própria vaidade, que não enxergam dos lados, que sugam e não oferecem nada em troca. Odeio porque meus princípios morais se baseiam nesses fatores citados. Não ter expectativa é uma ilusão. Impor que o outro cumpra com sua expectativa é outra história. É egoísmo? Acredito que ninguém é totalmente altruísta e quem acredita nisso pode ser mais vaidoso do que realmente caridoso. Será que nesse caso os fins justificam os meios? Não sei dizer. Às vezes idealizo demais e, por assim sendo, erro na mesma proporção. Longe de mim sentir as mazelas de um abandono. Que por vezes inconscientemente sentimos em vários momentos. Difícil é viver e ser coerente o tempo todo, seja com suas ideologias, seja com as pessoas que te cercam, seja consigo mesmo. A gente muda muito, sente muito e se perde muito. A racionalidade é um estado necessário. Não se compra, não se vende, talvez se troque. Difícil é ser racional enquanto se sente contrariado, desafortunado, abandonado. A dor que entra em colapso grita mais forte, e assim a loucura parece ganhar força. O medo transforma, o medo deturpa. O medo gera violência, autoritarismo, insanidade. Ainda que as conquistas sejam escassas, é preferível comemorar e se orgulhar da luta que lamentar o fracasso.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Velho bêbado

Tem um senhor, morador de rua, que vagueia perto da minha casa todos os dias. E, diariamente, ele está bêbado. Seus passos lentos e atrapalhados, como se arrastasse os pés. Seu rosto sempre vermelho e os lábios moles que proferem algumas palavras nonsense em conjunto com pedidos de trocados para mais uma cachaça. Ele vai até o boteco da esquina, todos os dias, frequentado por alcoólatras, de várias classes, assim como ele. Seu bafo pode ser capaz de matar um leão, de tão forte, e seu cheiro misturado à cachaça, sujeira e suor se alastra pelo caminho como uma sombra que permeia um corpo esquecido pelo tempo, pelo cuidado ou por alguma razão de viver. As pessoas fingem não vê-lo, o ignoram. Sua espécie é a mais desprezada nessa sociedade. Ninguém quer ficar perto de alguém nessas condições, ninguém vê humanidade ali. É como um selvagem que em algum momento cedeu à repressão que a própria vida lhe trouxe. Não dá pra saber a história de cada velho bêbado que encontramos nas esquinas, becos e botecos sujos da cidade, ninguém liga. Ninguém quer saber. Mas é interessante se identificar de alguma forma àquela condição, mesmo que tão alheia a nós, que temos uma cama e chuveiro quente. Porque qualquer pessoa em algum momento de desespero já teve vontade de sair correndo. Encher a cara diariamente. Tacar um longo e ressoante foda-se a esse sistema que continua escravizando inocentes, que promove guerras civis, que ainda mata pobres, que nos obriga a sobreviver exaustivamente numa escalada que não tem topo. É mais fácil se identificar com um velho bêbado do que com um engravatado que dá risada alta e não sai do celular enquanto come seu insosso prato de buffet caro no horário de almoço oficial de qualquer bairro comercial da cidade. Porque as vezes esse tipo é tão desprezado e tão invejado quanto o velho bêbado (em sua pseudo-liberdade). Nossos parâmetros comparativos são por vezes tão distorcidos que é difícil encontrar humanidade em cada indivíduo. Será que por que nos falta humanidade também?

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Discurso de ódio ao egoísmo

Tem dias que eu tenho vontade de socar a cara de alguém pra ver se passa esse meu ódio de gente egoísta. E o egoísmo tem várias faces, desde usar os outros para o que lhe convém ao pensamento liberal do "privatiza tudo". Privatiza então esse dom que as pessoas têm de serem inconvenientes, incoerentes, aproveitadoras. Taxa elas. Coloca imposto em tudo. Cobra mais caro pra quem é mais rico de safadeza, de moral contestável e abusiva. Vamos protestar pela falta de empatia. Expõe todo mundo. Coloca a cara deles na roda, dê nome aos bois, boys, minas, manas. VAMO BOTÁ PRA FUDÊ COM A GALERA APROVEITADORA!
Ficha suja, todo mundo tem. Mas é importante aprender. Escutar, mais do que falar. Fazer aquele exercício básico de se colocar no lugar do outro, fazendo recortes - não só sociais - mas de vivência. As experiências são diferentes. A forma como cada um lida e encara a vida, também. Ter cuidado com o outro. E, mais que ter essa consciência, pragmatismo. Não adianta ser eloquente pra depois agir incoerente. Palavras não bastam. Como diz Silvio Santos: "só acredito vendo". E assim a gente segue querendo fazer revolução todo dia, com cada pessoa do seu convívio, mas a gente vê que é difícil, então, o que resta é pra partir pro ataque. Ou ignorar completamente, quando não restar paciência - e não querer socar a cara de alguém. Ou, mete o louco, como dizia minha mãe: "bebe água que passa". ARGH!

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A pena

Sigo delirando na vida que é me imposta e reluto em aceitá-la nos seus termos mais conformistas. Quero um mundo mais honesto, nem que eu não possa usufrui-lo enquanto viva, mas que fique de herança da minha breve estadia. Arrogância travestida de altruísmo? Ou uma revolta tão forte (e necessária) que se não for pensando nas próximas gerações melhor não fazer? Essa luta é minha. Deveria ser de todos. Mas é compreensível a desmotivação de cada pessoa. Sigo flutuando porque ainda sou crua em algumas questões, mas das dores, já sou calejada, e isso não significa que doa menos. A questão é que não surpreende mais. Ele diria que é autossabotagem, eu chamo de autocuidado e de percepção deveras aguçada, que beira à enfermidade. Queria uma relação sincera que o machismo passasse longe, mas isso é idealizar demais e o amor não se sustenta assim. Nada nessa sociedade está inerente ao machismo. Me dói porque me faz perceber que continuo falhando. E errando eu sigo me confundindo, me desesperando, me atordoando e me perdendo. Às vezes sinto que não mereço ser amada, não posso culpar a sociedade por me fazer sentir assim, mas também não posso culpar a mim mesma. Só queria um relacionamento que eu pudesse me despir completamente, e eu encontrei, só não sei como me cobrir. Queria me sentir coberta de plumas que de tão macias eu me sentisse acolhida e quentinha, pois estou cansada de flutuar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Desmotivação

O título me acompanha como um sobrenome. É o terceiro lugar que eu trabalho este ano e não consigo mais me enxergar motivada. Passam-se alguns meses, semanas, dias, e eu já tô querendo pedir arrêgo. Escrevo este parágrafo duvindo de mim mesma. Porque a vida toda ouvi que a gente tinha que valorizar o nosso trabalho, que uma atitude dessas (chegar atrasada, faltar, o contrário da proatividade) é coisa de gente que não precisa do emprego, principalmente da minha mãe, que depois que virou patroa esqueceu-se como é ser funcionária. Aliás, ela acha que é assim que deve ser, que a gente não pode ficar insatisfeito e buscar por oportunidades melhores, que não pode brigar por melhores condições de trabalho etc. Ela tem mudado o pensamento, mas ainda não entende porque pulo tanto de emprego em emprego. Eu tenho vários motivos - que cansei de explicar. A terapeuta disse que eu me afeto muito com o ambiente e pessoas. Verdade. Eu as odeio. Tá, foi exagero. Tem gente legal e gente cuzona em qualquer lugar. Depender de pessoas, especialmente no ambiente de trabalho, pra encontrar a própria satisfação nunca é um bom caminho. E é essa a minha questão. Eu amava a content e as pessoas, mas estava infeliz no trabalho. Eu odiava a mestiça porque o ambiente era um lixo e não gostava nenhum pouco do meu trabalho. Neste lugar, eu amei o dinheiro, mas não tenho mais paciência e nem alma pra vender pra fazer qualquer esforço em me enturmar pra continuar lá. Por: dinheiro. Não aguento mais buscar por: dinheiro. Já me fodi tanto com a falta dele e com o desemprego que talvez eu devesse agir conforme minha mãe e o Temer acham: não pense, trabalhe. Acontece que então nem tenho como começar porque meu trabalho envolve totalmente o pensar. Se não estou bem, não trabalho bem. Porque toda aquela lavagem cerebral que passei em achar algo positivo na propaganda morreu. Tô quase virando militante anti-publicidade de tanto argumento que encontrei. Vou fazer uma anti-campanha. Criar uma estratégia do caos. Fazer um brainstorm pra chegar na melhor ideia de desordem e algumas peças de anarquismo pra derrubar esse governo golpista e saquear a casa e as contas de quem tem mais de 2 milhões de propriedade e renda líquida. Tudo isso de forma conceitual, o slogan até pode ser: "Distribua seus bens ou renda-se". E o posicionamento: "O poder é nosso". Ah, isso seria um prazer, rs. Sonho de princesa, aliás, de pebleia.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Abuso

No primeiro ano da faculdade, minha referência de jornalista era o Caco Barcellos, autor de dois dos meus livros de investigação jornalística favoritos: O Abusado e Rota 66. O primeiro traz um relato em primeira mão (trabalho de campo), de consistência imparcial - ainda que moderada por própria dificuldade do impacto que a linguagem pode causar - sobre a trajetória do Marcinho VP, líder do Comando Vermelho, da sua ascensão à sua queda, com entrevistas com pessoas próximas, familiares, policiais exonerados etc, tudo numa narrativa concisa e coerente aos fatos. É um livro de mais de 500 páginas que consumi como se fosse um irresistível hambúrguer num dia de TPM. O segundo é uma denúncia indireta - com nomes pouco disfarçados dos personagens - aos comandantes da Rota e dos seus casos de extermínio em massa. O trabalho minucioso e sensível do Caco me encantava, eu sentia que era isso que eu queria fazer. Caco romanceava duas histórias que se confundem, porque em ambas há o abuso da polícia militar e a impotência do cidadão comum de se defender desses abusos e deixar de ser vítima. Quase dois anos depois, comecei um estágio numa editora sendo explorada redatora/repórter assistente de duas revistas, uma de artesanato e outra de gastronomia. Não consigo resumir a série de abusos que vi e vivenciei naqueles insuportáveis 9 meses. Foi a primeira vez que pedi demissão na vida. Ambiente opressor, machista e elitista, onde a maioria, veja bem, era composta por mulheres, desde a recepção à sala da editora-chefe. A editora faliu. Muitos funcionários dali hoje trabalham com a publicidade mais tosca que existe, que é das mídias sociais, feita por ex-jornalistas que escrevem textões sobre produtos achando que estão informando e não vendendo, mídia barata, trabalho sem conceituação, apenas textão explicativo. Gosto de rir porque eu mesma já acreditei nessa mentira e gosto de ver pessoas arrogantes quebrando a cara. É o prazer da vingança indireta. Outros trabalham em jornais de bairro, ganhando pouco e dependendo dos releases da subprefeitura local. Ou seja, não é um trabalho de redação ou reportagem, e sim de edição, você apenas altera parte do conteúdo de um texto escrito por alguém, que tem diversos objetivos, inclusive. Lembrando que press-release é o começo da propaganda, em conjunto com a relações públicas, adentrando o jornalismo. O press-release é o material do assessor de imprensa. É o ópio dele, é quando ele transforma produto em conteúdo, travestido de informação. Naquela mesma época eu já havia aprendido as teorias de pharmakon, e sabia que o que eu trabalhava também era cosmética. Alguns colegas de sala trabalhavam com o veneno, em revistas de fofocas e/ou sensacionalistas. Anos depois, acabei migrando para a publicidade numa agência de health care em que boa parte do meu trabalho era conceituar remédios e, com o tempo, minha linguagem de trabalho foi se transformando. Eu, que acreditava na linguagem como forma de remediar, provei do meu próprio veneno. Caco Barcellos a essa altura já estava em Paris, local onde encontrou exílio após a perseguição (de policiais, políticos e traficantes) dos que trataram O Abusado como um enaltecimento da figura do dono do morro, mas que também expôs muita gente. Na época, o texto de Caco foi comparado ao que fizeram os autores dos livros didáticos sobre a história de Che Guevara: "transformou o bandido num herói". Eu pensava se eu teria culhões de invadir uma zona de guerra, como o Caco, sob o risco de ser morta ou ganhar um Pulitzer, para o orgulho de minha família, enquanto tomava café expresso sentada dentro de um pequeno escritório numa região classe média de São Paulo. Momento confuso da vida. Vivia um relacionamento abusivo. Ganhava pouco mais do que no estágio de 3 anos antes. Minha mãe se recuperava de um câncer. E eu ainda sofria com os pós-efeitos de ataques de gordofobia. Experimentava o desgosto de episódios de anorexia e depressão. E não encontrava mais chão. Continuei por inércia. Passados quase 3 anos no mesmo lugar, mesmos clientes, um salário um pouco maior e um peso nos ombros por conta de todo estresse que aquela situação me causava, depois de vários relacionamentos interpessoais fracassados, várias questões, pessoas e situações difíceis, todas vividas durante esse período, passei a pensar na morte como subterfúgio para um grito interno. Muita coisa mudou depois disso. Hoje, anos e anos depois, encontro questões parecidas, mas notei que em grande parte das escolhas que tomei, das situações opressoras que mantive - e depois corri num impulso de desespero -, eu era a minha principal abusadora. Mas isso só seria possível de se concluir se eu acreditasse que minhas escolhas são inerentes ao ambiente e a todos os fatores que se movimentam ao meu redor, como se eles não me afetassem. Hoje, concluo que a melhor escolha é aquela que é tomada através da crença no próprio juízo do momento, mesmo que se ao olhar para trás, não faça sentido ou você não se reconheça. Pra não dizer mais: fugir de abusos em quaisquer situações, seja no corporativismo, nos relacionamentos afetivos e interpessoais e, claro, antes de tudo, consigo mesmo.

sábado, 18 de agosto de 2018

Mulher fácil

Não importa sua linha de frente ou de estudos, você sempre estará fadada a sofrer com a face mais bruta do machismo - porquê você tem conhecimento, já disse alguém que a ignorância é uma benção -, especialmente quando você mantém relações heterossexuais. Porque o homem do seu lado sempre será um homem hétero e independente da cor, da classe, da origem e da luta dele, ao lado dele você sempre enfrentará situações de opressão. Porque você sempre será a mulher da relação e trará todo estigma que isso traz. Você sempre será a pessoa menos benquista. Sempre será aquela motivo de confusão e competição. Ninguém olhará pra você sem antes trazer dois mil artifícios pra te reduzir à figura da mulher, da frágil e extremamente subestimável. Você nunca será boa o bastante. Nem pra ele, nem pras pessoas ao seu redor, nem pra sociedade, que te condena desde o útero. Você sempre será quem carregará o peso do machismo no seu ombro, porque para o homem ao seu lado é só uma questão de compreensão. De esforço. E a maioria das pessoas não quer se esforçar pra entender o outro. Dá trabalho. Cansa. Ainda mais se pensar que poderia ser mais fácil. Claro, se você fosse mais fácil. Mas, no fim, você sempre estará sozinha nessa questão.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Los ojos del alma

Existe uma resposta inapta para tudo o que os olhos são capazes de expressar. Sentir é mais que preciso. Mais concreto e palpável. Porque o que eu sinto parece inesgotável. É um calor incansável. Nunca terei palavras pra conseguir verbalizar o que jorra aqui dentro, talvez por pura inabilidade ou simplesmente timidez, ou, melhor, por achar que não será suficiente. Jamais será. Me pego desprevenida olhando dentro dos seus olhos e percebendo meu reflexo, é como se a metáfora fizesse sentido: me vejo através de você. E uma chama paira no meu interior, gritante, mostrando o quanto é forte o que eu sinto por você. Mil pensamentos dominam a minha mente e tornam esse momento mais estimado. Você, pela primeira vez, como ninguém, me deixa sem palavras.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Amor romântico, dores e especulações sensoriais

Sempre fui do tipo que se questiona tanto e permeia por tantos pensamentos até chegar à estafa. Essa mente incansável não dorme até não encontrar um motivo razoável para baixar a guarda, ou qualquer sentimento, mesmo que efêmero, que sugira alguma possível resolução. Mas, veja bem, isso é uma fraqueza. E, apesar disso nunca ter me impedido de agir e de buscar por condições melhores, independente da origem dessas necessidades, em algum momento a confusão vem e, com ela, uma série de dúvidas e perguntas vazias. Quero sentir tanto que quando tenho contato com essa profundidade, me assusto. As pessoas falam de amor através de suas ideologias e convicções, e idealizações, que não sobra espaço para apenas sentir, sem questionar, sem tentar destrinchar algo que às vezes não tem uma explicação racional e crua. Uma explicação que vai saciar essa urgência. Eu não gosto de romantizar o amor, mas ao mesmo tempo idealizo com metáforas e tentativas de definir algo que nem eu mesma entendo. Eu acho que é porque se trata de uma série de sentimentos e sensações. Talvez o amor não tenha pressa. Mas a vida tem. E a gente muitas vezes escolhe amar por saber que talvez não sobre muito tempo para experienciar algo tão belo. Talvez a gente apenas não tenha que separar as coisas em caixinhas. Estigmatizar e moldar de acordo com a nossa ótica pessoal que muitas vezes é deturpada pela indústria que faz chover poemas do século XIX, pelos remanescentes sofredores que são também grandes poetas da nossa cultura, pelo amor que se recebe da mãe (e aquela falácia de amor materno que tudo salva para vender bolsa Luis Vuitton no Natal e perfume da Avon no dia das mães) e por uma série de referências que nos impactam e consentimos por toda nossa vivência. Amor também é uma construção social. Amor também pode ser sofrimento. Amor também pode ser aquela explosão de sensações tão doces que parecem ter gosto de sorvete e tão leves que parecem sair de uma brisa num fim de tarde de verão, aquecem a alma e nos tiram um sorriso fácil. Essa vida é dura e muitas vezes deprimente. Às vezes, escolhemos certos caminhos que nos levam pra esse poço de dejetos mal cheirosos. Às vezes não. A vida nos carrega. E o amor, que eu não sei como descrever e nem compreender de fato, pode deixar tudo mais afável e brando. O que nos resta, assim como tudo nessa vida, é viver. E amar, se possível.

domingo, 5 de agosto de 2018

Alegorias

É o medo compulsório da paranóia. Deixar de ser solo e perder individualidade. A ideia de dividir a vida que é mal digerida. O dorso descoberto para o acaso. Segurança a partir de uma falsa ilusão. Especulação sem sentido. Declínio. Delírio. Certeza. Vulnerabilidade. Discurso teatral. Incoerente. Incerto. Romantizado. Estardalhaço. Sombra do passado. Devaneio. Sono. Tesão. Tensão. Falta de foco. Superestimado. Ego. Orgulho. Amor. Lapso. Dormir.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Hipnotizada



Não gosto mais da ideia de romantizar a vida real, mas de fato sua chegada a suavizou. É quase como se você fosse um oásis no meio desse meu caos pessoal. O sorriso lindo que contagia e me enche de esperança, e agonia. De não ver as horas passarem para te ter nos meus braços novamente. Sentir teu cheiro e me perder no teu abraço. E desejar que teu gosto não suma dos meus lábios. Passo o dia tentando relembrar cada detalhe teu, sob uma incansável obsessão, aspirando o momento de saciar o insaciável. É uma fome que faz o coração retumbar, e entrar em degelo a cada despedida. Essa energia tua que parece arder, de tão quente, e me faz te querer, de tão urgente. Não consigo parar de te olhar, é como se tua visão fosse cosmética, ou puro mel, de tão afável. Odeio ser clichê, poderia inventar a roda pra tentar descrever o que sinto por você, mas sou humana e, assim, me entendo. Que só quero passar o dia entrelaçando os dedos nos teus cabelos, admirando a beleza do teu ser.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Eu não sou líquido



Eu não sou líquido, mas me sinto escorregando pelas arestas do que chamamos de vida adulta, ou, pelo menos, às concepções relacionadas à ela. E esse líquido tem um gosto amargo. Comecei a semana sendo invadida, novamente, por questões relacionadas ao trabalho. É muito tempo de vida perdido fazendo algo que não se acredita. A vida é breve e ela tem chamado nesse sentido. Vi um gráfico num site de empregos que dividia o entendimento em se ter um emprego e uma carreira, dando a entender que se ter uma carreira em que se acredita e em que se investiu muito tempo, esforço e dinheiro, é recompensador. É como vivenciar a tão sonhada experiência da carreira dos sonhos. Fiquei furiosa me perguntando quantas pessoas passam, muitas vezes, a vida inteira, acreditando nesse ideal falso e presunçoso, e em quantas nunca acordam dessa ilusão. O mais intrigante disso tudo é que eu trabalho com isso, vendendo uma ideia com o objetivo de gerar consumo, e foi sob esse conceito falacioso que eu tentei perverter a minha mente, centenas de vezes, achando que estava prestes a adquirir isso. Fiquei relembrando quando comecei e quanto eu evolui nas minhas habilidades. Eu sou agora o que poderia se chamar de redatora criativa modelo. A questão é que não quero ser um modelo de fábrica, mais um zumbi correndo de estação à estação, mergulhada num mundo corporativo que mais suga que fornece, e gastando todo meu dinheiro de bar em bar pra tentar esquecer o quanto de mal tem no mundo - e que a área que trabalho, muitas vezes, só colabora para isso. Capital é a base de tudo, é o que faz girar esse mundo. E isso me preocupa. Depois que comecei esse texto, percebi que já tinha escrito algo parecido há dois anos (aqui e aqui), mesmos questionamentos e angústias. Sigo sem respostas. "Use o sistema ao seu favor", é o que me disseram semana passada e é o que eu vejo a maioria das pessoas fazendo ao meu redor. Pessoas, essas, que também se questionam sobre tudo isso. Já desejei ser menos pensante. Fazer tudo no modo automático, fechar os olhos e apenas fluir, mas eu não consigo e agora sei que não quero mais. Sinto que tenho mais decisões a tomar, e com cuidado poder me encontrar em busca de um futuro mais ameno e honesto comigo mesma.

"O presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da ação.", Simone de Beauvoir

domingo, 1 de julho de 2018

O pêndulo e a vela


O tempo nunca foi meu amigo. Na verdade, eu nunca consegui acompanhá-lo. Penso que não há liberdade quando se tem que viver conforme o tempo que foi determinado a você. Nessa sociedade que prega o egoísmo como condutor de uma vida que se espera que você tenha, o livre arbítrio é uma farsa. "Jogue o jogo deles", eles disseram, enquanto no andar de baixo, havia um garoto de 19 anos, periférico, negro e gay sofrendo bullying de sua chefe, um dos motivos que supostamente o levaram a ter um surto psicótico meses depois. Quem aguenta viver nessa cidade com sanidade? Sempre correndo, sendo esmagado dentro dos transportes públicos, perdendo horas no trânsito diariamente e constantemente se perguntando que merda de vida é essa. "Tenha uma vida que merece ser vivida", quando se alcança isso? Ou essa frase é só mais uma fábula desses poetas que eram completamente infelizes, sempre buscando algo inexistente para aliviarem suas dores? Não é à toa que os mais famosos também eram bons poetas de bar, tinham problemas com álcool. A verdade é que não tenho conseguido mais me divertir sem álcool. As mudanças bruscas que passei me deixaram séria porque é preciso força para encará-las com firmeza até que se solidifiquem. A questão é que não quero que se tornem estruturas, porque eu gostaria de dançar um pouco pela vida antes que as coisas concretas tomem forma. Eu quero um minuto de paz, porque o tempo não tem sido legal comigo. Ou, talvez, porque eu não tenho conseguido aproveitá-lo de uma maneira sadia. Eu quero mais, ao mesmo tempo que não tenho certeza do que quero. E encarar esta confusão diariamente tem me feito enlouquecer. O tempo não para, e as vezes quando quero, ele não passa. No fim somos apenas peças do tabuleiro, temos apenas que nos mexer para jogarmos, sem saber qual é a jogada certa. Ele me disse: "É melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão", eu o vi com uma luz, sua proposta me trouxe uma claridade, mas há uma voz no fim do túnel me dizendo para não acreditar nisso, assim como todas as outras vozes que sempre me disseram para não confiar em ninguém. E eu confio. Mas não consigo encontrar minha própria luz.